5/30/2009

Doces palavras de Balzac (2)

Os atacadistas e seus filhos, os empregados, a gente boa dos pequenos bancos, os espertalhões, as almas penadas, os balconistas, os escrivães dos tabeliões, dos advogados, dos oficiais de justiça, todos os membros ativos - pensantes e especuladores - dessa pequena burguesia que cuida dos negócios de Paris (...), sem beber água ardente como o operário, sem chafurdar na lama suburbana, todos abusando de suas capacidades, esgotando além de qualquer limite seu próprio organismo e sua própria vontade, forçando a reação de um sobre a outra, torturando-se pelos desejos e afundando numa vida dinâmica e ansiosa demais.

A excitação física realiza-se neles sob os estímulos ardentes dos interesses e sob o acicate da ambição, que atormenta a classe média dessa cidade monstruosa assim como nos proletários realizou-se sob a pressão cruel das elaborações materiais, impostas pelo despotismo econômico da aristocracia. Aqui também, para obedecer ao dono do universo, que seja o dinheiro ou prazer, é preciso devorar o tempo, lutar contra o tempo, fazer com que dia e noite durem mais de vinte e quatro horas, estragar os nervos, matar, trocar, trinta anos de uma velhice sadia por dois anos de um repouso cheio de doenças.

Somente o operário morre no hospital no fim de seu esgotamento físico, enquanto o pequeno burguês persiste em viver e vive, nem que seja aparvalhado; o rosto cheio de rugas, aplastado, velho, sem brilho nos olhos nem firmeza nas pernas, arrastando-se com expressão idiota pelos bulevares, que são o cinto de sua Vênus, sua cidade predileta.

Quais eram as aspirações do burguês? O uniforme da Garde Nationale, o pão certo de cada dia, um túmulo decente no cemitério Pére Lachaise e um pouco de dinheiro ganho honestamente e guardado para a velhice.

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