10/28/2009

Cultura da Indiferença e Espiritualidade Solidária

Resumo

Este artigo analisa como o estilo de vida da sociedade contemporânea têm contribuído para a geração de uma cultura progressivamente individualista e desumana, onde as relações interpessoais são marcadas pela indiferença. Além disso, busca subsidiar as ações pedagógicas e/ou pastorais junto às comunidades, no intuito tomar a solidariedade como traço essencial do currículo e da própria espiritualidade.

Palavra-chave: espiritualidade – solidariedade – cultura contemporânea

Considerações Introdutórias

Esta reflexão parte do reconhecimento da necessidade de uma pastoral e/ou ação pedagógica que capacite as comunidades para um sentir e um agir norteados pela solidariedade. O texto está dividido em duas partes: na primeira parte refletimos sobre a realidade cultural contemporânea por nós denominada de “Cultura da Indiferença”, procurando melhor compreender os mecanismos geradores e mantenedores do estilo de vida das pessoas na atualidade, profundamente marcado pela indiferença, que dificulta o desenvolvimento de práticas solidárias na sociedade atual, ainda que no contexto das comunidades de fé cristãs. Na segunda parte, buscamos princípios que norteiem a implementação de planos pedagógico-pastorais que sejam instrumento de reeducação de comunidades de fé, no sentido de despertá-las para a consciência e prática da solidariedade, conduzindo-as a uma “espiritualidade solidária”.

A indiferença como traço cultural contemporâneo

O que levou a sociedade atual a possuir esta forma de pensar e agir tão carente de solidariedade? Quais os fatores que contribuíram para a implantação e manutenção desta “cultura da indiferença” que avassala até mesmo as comunidades de fé mais unidas? Esta postura, ou melhor, este estilo de vida insensível e indiferente de grande parte das pessoas na atualidade é impulsionado por muitos fatores, não facilmente identificados, visto que não estão restritos a uma área do conhecimento ou a um aspecto da vida humana. Muito pelo contrário, vários fatores de ordem social, cultural, econômica e até religiosa podem ser apontados como incentivadores do estilo de vida contemporâneo. Vejamos alguns deles.
O fenômeno da coisificação humana
O tema da sensibilidade solidária está intrinsecamente relacionado à forma como o ser humano se compreende e à identidade que ele mesmo assume culturalmente. Esta identidade cultural da pessoa passa pela forma como o ser humano lida com seu próprio corpo. Sim, a corporeidade influencia no ter ou não ter uma sensibilidade solidária. A forma como ser humano experimenta culturalmente seu corpo determina como tratamos uns aos outros no dia a dia.
Melhor explicamos este fator ao compreendermos algumas das transformações que a modernização dos séculos XVIII e XIX causaram na maneira do homem lidar com seu corpo. Apesar da brutalidade e da comercialização dos corpos (pessoas) no sistema escravista, foi com o advento da Revolução Industrial e do capitalismo que, de modo generalizado, o trabalhador gradativamente deixou de ter o prazer no trabalho e passou a vê-lo de forma mais instrumental, ocorrendo o distanciamento do corpo, principalmente na classe operária. O homem moderno deixou de perceber o seu corpo como o provedor de sua necessidade e passou a vê-lo como produto, como objeto, coisa (Gonçalves, 1994, pp.13-35).
No capitalismo, o corpo passou a ser vendido como força de trabalho ou usado na promoção de vendas, alienando a pessoa de seu corpo (descorporalização). O ser humano percebe o corpo como objeto direto de seus próprios interesses de consumo e riqueza. O outro não é mais pessoa, mas força de trabalho, objeto a ser vendido-comprado, coisa. É o fenômeno da coisificação humana, onde as relações interpessoais não relevam o outro como ser humano portador de uma identidade própria, com sentimentos, sonhos, etc., onde o outro é coisa, diante do qual nos tornamos insensíveis e indiferentes. Na cultura da indiferença, a pessoa não se faz “próximo” do outro, a não ser que veja (ou sinta) no outro uma oportunidade de lucro ou benefício próprio.
As seqüelas da urbanização do século XX
As últimas décadas do século XX foram marcadas pelo grande crescimento das cidades. Estima-se que, em todo o mundo, ao longo dos últimos 30 anos, cerca de um bilhão de pessoas se transferiram da zona rural para a cidade (GRIGG, p.32). As cidades contemporâneas são marcadas pela presença de milhões de pessoas na luta pelo espaço-moradia, emprego e sobrevivência. A cidade tornou-se palco de uma competição desumana, onde a violência está instaurada e dificilmente sairá.
No mundo atual, “Homens, mulheres, crianças, jovens e idosos, pertencentes às diversas classes sociais, estão experimentando o dia-a-dia das cidades, marcado pela violência generalizada, pelo medo, pela miséria humana, pela solidão...” (CASTRO, p.109), configurando uma realidade que pouco nos estimula à prática da solidariedade. O outro é visto como concorrente direto na luta pela sobrevivência e esta noção social determina relacionamentos interpessoais descompromissados com o bem estar do próximo. Mais que isso, em muitas circunstâncias o outro é tido como ameaça e não como cúmplice na luta pela vida e sobrevivência. É fato notório que – no processo de urbanização acelerada – a segregação do espaço público, a aglomeração e a violenta luta por sobrevivência têm contribuído para a formação de uma cultura da indiferença.
Uma visão fragmentada da realidade
O próximo fator que contribui para a formação da realidade atual é menos perceptível que o caso da urbanização. Trata-se da visão fragmentária em nós impregnada sistematicamente pela ciência moderna. “Nas escolas fomos ou somos preparados para conhecer pedaços diferentes da realidade. Uma disciplina funciona quase sempre como seguimentos autônomos, e estabelece pouco ou quase nenhuma relação com outras disciplinas do curso” (ASMANN & SUNG, p.78). Esta forma fragmentária e mecanicista de ver a realidade expandiu sua influência para além das salas de aula, alcançando a própria cultura na qual vivemos. A fragmentação da realidade “nos leva a vermos certos aspectos da realidade e a não vermos outros; mais ainda, leva-nos a não perceber que não vemos esses outros aspectos” (Idem, p.79), condicionando nossa visão como se a parte que vemos fosse o todo.
O mal causado por esta visão fragmentada da realidade ao conjunto das relações interpessoais e sociais é muito grande, pois ela nos impede de vermos a realidade como um todo, como um conjunto de peças interdependentes e nunca completas em si mesmas. Não somos ensinados a enxergar esta interdependência, passando a não compreender a importância de temos uns para os outros no próprio processo de luta pela vida (acima mencionado). Portanto, esta visão fragmentada confirma ainda mais a tendência individualista atual e impede que uma pessoa enxergue a importância do bem estar das outras pessoas para a sua própria sobrevivência.
A falta da percepção causa-efeito
Enfim, concluímos a primeira parte desta reflexão mencionando mais um fator contribuinte para a implantação e manutenção da “cultura da indiferença”. Falamos agora da falta da percepção causa-efeito. Um exemplo simples é o de uma pessoa que não percebe o resultado de sua atitude de jogar lixo em esgotos, invés de condicioná-lo em lugar apropriado. O acúmulo de lixo nos esgotos contribui para o transbordar dos córregos e rios canalizados, gerando mau estar, prejuízo e uma série de dificuldades para as populações que residem nas partes baixas da cidade, inclusive para a pessoa que não jogou “aquela lata de refrigerante no lixo apropriado, que não sofreu diretamente as conseqüências de sua atitude.
As dimensões globais, sistêmicas e metropolitanas da sociedade contemporânea dificultam ao humano perceber as conseqüências diretas e/ou secundárias de suas próprias atitudes em seu meio social e ecológico. Tal dificuldade nos impede de vislumbrar o retorno (efeito para si) que uma atitude solidária (causa) possa desencadear. Alguém poderia dizer: “minha boa ação não vai mudar o mundo, é melhor não me ocupar demais com estes assuntos”. Ou então: “se não dou conta dos meus próprios problemas, como posso resolver o problema da cidade?”. Ainda, podemos ouvir tal frase: “somente meu voto não fará diferença nestas eleições!” Como vemos, a impossibilidade de ver a repercussão social das ações individuais estimula o sentimento de indiferença entre as pessoas, principalmente quando se busca resultado imediato. Muitas ações solidárias plantadas hoje serão colhidas na próxima geração.

Sensibilidade e espiritualidade solidária
A partir de que princípios nós podemos elaborar planos pedagógico-pastorais que sirvam de base para o despertar de um “espírito solidário” em comunidades de fé cristãs? Esta questão norteará nossa reflexão neste segundo momento, com o intuito de subsidiar as ações pastorais enquanto prática pedagógica.

A solidariedade: fundamento para o currículo

Um plano pedagógico-pastoral necessita de um currículo constando de um conteúdo programático a ser implementado. Ter a solidariedade como fundamento para este currículo implica em fazer com que todos os temas abordados no decorrer do cotidiano pastoral sejam estimuladores de uma espiritualidade solidária. Errado seria restringir o estudo do tema a uma única disciplina, visto que a solidariedade não é um conteúdo isolado para fins específicos, mas é uma forma de ver o mundo. Portanto, a abordagem sobre o tema da solidariedade deve ser transdisciplinar, perpassando cada conteúdo ministrado pelo/a pastor/a (professor/a), cada dinâmica e vivência desenvolvida com a classe, cada momento de aconselhamento; no cotidiano formal e informal da comunidade.

Ensinado a ver a totalidade

O segundo princípio para o nosso plano pedagógico-pastoral está diretamente relacionado com o subponto discutido anteriormente, Uma visão fragmentada da realidade. Sendo assim, a ação pedagógico-pastoral deve estar preocupada em ensinar a comunidade a ver a realidade de forma total/sistêmica e não fragmentada. Não devemos estimular a maneira de pensar relacionada ao método analítico – que, segundo Asmann & Sung (p.81), “consiste em isolar as partes a fim de compreendê-las” – uma vez que “Quando as pessoas têm uma visão sistêmica da realidade social conseguem perceber que elas são o que são porque fazem parte de um todo social e que elas não existiriam sem a existência de outras pessoas e do sistema social” (Idem).
Esta forma de pensar deve ser aplicada também à forma de enxergar o mundo religioso, pois os cristãos devem-se compreender como parte de um todo seja como cidadãos, seja como religiosos, invés de terem uma postura separatista da sociedade por assumirem conceitos teológicos e uma compreensão social dicotômica e fragmentada. Somente quando a comunidade de fé se enxergar absolutamente como parte de um todo social, compreenderá as relações de interdependência que regem o sistema (a realidade).

Conhecimento teórico e reconhecimento existencial

Para tratarmos deste princípio, lançamos mão do conceito de sensibilidade solidária, que é:

“uma forma de conhecer o mundo que nasce do encontro e do reconhecimento da dignidade humana dos que estão de ‘dentro-e-fora’ do sistema social; um conhecimento marcado pelo sentimento, empatia e compaixão...”( Asmann & Sung, p.134).
Aprender sobre solidariedade está para além de decorar alguns conceitos sobre como desenvolvermos boas relações interpessoais. Não se trata de um conhecimento teórico, mas de um aprendizado existencial. Deve haver a preocupação de despertar na pessoa o desejo de um mundo mais justo, amoroso e feliz para todos, fazendo com que a própria solidariedade seja horizonte de nossa esperança e condicione nossas opções morais fundamentais.
Debates sobre este tema têm-nos levado a concluir que os alunos e a comunidade devem ser estimulados e terem “partos de idéias” e “partos de sentimentos”, despertando na pessoa tanto a consciência crítica e a capacidade criativa, quanto o compromisso existencial-afetivo com o próximo, com a comunidade, com a sociedade, com a terra e com a preservação de todas as formas de vida. Enquanto aspecto do conhecimento humano, a solidariedade é algo a ser apreendido por meio de uma experiência completa do ser, onde a capacidade racional-lógica, os sentimentos, as emoções e todos os sentidos são possuídos pelo prazer de amar.
Considerações finais
A espiritualidade cristã, ainda que negligenciada pelos violentos processos de secularização, insiste em encontrar lugar no canto e na prece do povo brasileiro. Neste universo cultural híbrido, os ministros da Palavra, religiosos, agentes de pastoral e professores ocupam um lugar de extrema importância, pois podem [simplesmente] reproduzir a globalizada “cultura da indiferença”, ou podem fazer valer a sua vocação enquanto cristãos, capacitando os fiéis para uma experiência de religiosa não individualizada, nem excludente.
As comunidades de fé possuem a grande tarefa de mostrar à sociedade uma alternativa aos processos de desumanização e embrutecimento. Isto somente acontecerá por meio da vivência de uma fé integral, isto é, que contemple aspectos tanto da piedade, quanto da solidariedade. É, portanto, por meio do cultivo de uma espiritualidade solidária que a fé se tornará eficaz, na prática do amor, na luta por justiça, na defesa do oprimido, no sorriso sincero, no abraço amigo, nos gestos de carinho e afeto, e na ternura de um olhar que vê no outro não um número ou mera coisa, mas pessoa, gente como agente.

Leitura indicada
ASSMANN, Hugo & SUNG, Jung Mo. Competência e sensibilidade solidária: educar para a esperança. 2ª Ed. Petrópolis, Vozes, 2001.
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. São Paulo: Cultrix, 2006.
CASTRO, Clóvis. A cidade é minha paróquia. S.B.Campo: Imprensa Metodista, Editeo/Êxodus, 1996.
CASTRO, Clóvis. Por uma fé cidadã: a dimensão pública da igreja, fundamentos para uma pastoral da cidadania. São Bernardo/ São Paulo: UMESP/Loyola, 2000.
COX, Harvey. A cidade do homem. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.
GONÇALVES, Maria Augusta Salim .Sentir, Pensar, Agir: Corporeidade e Educação. Campinas - SP: Papirus, 1994.
GRIGG, Viv. O grito dos pobres na cidade. Belo Horizonte: Missão Editora, 1994.
LIBANIO, João Batista. As lógicas da cidade: o impacto sobre a fé e sob o impacto da fé. São Paulo: Loyola, 2001.
MORAIS, Denis de Moraes (Org). Globalização, mídia e cultura contemporânea. Campo Grande: Letra Livre, 1997.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro/ São Paulo: Editora Record, 2001.
SUNG, Jung Mo. Conhecimento e solidariedade. São Paulo: Salesiana, 2002.

Um comentário:

  1. Glória a Deus mano. Tu és um profeta!
    Nossos corações precisam resgatar uma espiritualidade que tenha a Trindade como referência. É com base no relacionamento de amor e amizade que existe entre o Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espirito Santo que encontraremos a chance de sermos resgatados e resgatar nossa humanidade.

    ahhh, na ultima linha do primeiro parágrafo do subtitulo a falta de percepção causa e efeito voce esqueceu de fechar as aspas. abraços

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