10/30/2009

O fenômeno da Pós-modernidade e seu caráter interdisciplinar

LYON, David. Pós-modernidade. São Paulo: Paulus, p.1998. [citações do 2º capítulo, 1ª parte]

“A pós-modernidade é uma idéia, uma experiência cultural, uma condição social ou talvez uma combinação das três? Sem dúvida, a pós-modernidade existe como uma idéia ou forma de crítica na mente dos intelectuais e nos meios de comunicação. Desde a década de 80, ela vem gerando um grande debate, às vezes acalorado, às vezes ansioso, em muitas disciplinas, desde a geografia até a teologia, e da filosofia à ciência política.” (p.13)

“Um grande número de idéias ocidentais começa com a providência, que é transportada para o progresso, e daí passa para o niilismo. A providência é o cuidado que Deus tem com o mundo depois de sua criação, supervisionando o processo da história de modo que esta avance numa linha em direção de um objetivo específico. Um dos seus campeões foi o pensador cristão do século quarto, Agostinho de Hipona, cujas reflexões em A cidade de Deus exerceriam uma influência modeladora profunda sobre a civilização ocidental. A doutrina da providência nega qualquer movimento cíclico na história, inspirando uma esperança orientada para o futuro, em vez de resignação ou pessimismo.”(p.15)

“Entretanto, a ênfase ao movimento progressivo da história foi facilmente combinada com a convicção de que as coisas, de uma maneira geral, estavam melhorando, especialmente sob o impacto do pensamento iluminista emergente. O afastamento da razão com relação ao medievalismo e à tradição levou muitos a acreditar que os poderes humanos podiam promover um avanço maior e mais rápido. Ironicamente, os próprios comentadores cristãos muitas vezes fomentavam essa visão. Mas, com o destaque ao papel da razão e com a depreciação da intervenção divina, foram lançadas as sementes para uma variante secular da Providência, a idéia de Progresso. A certeza de nossos sentidos suplantou a certeza nas leis de Deus e preparou o caminho para o surgimento de uma cosmovisão científica moderna. Mas, concomitantemente, a Europa assumia um domínio econômico e político.(p.14 e 15)

“Embora o iluminismo, e consequentemente o projeto moderno, tivesse como proposta eliminar a incerteza e a ambivalência, a razão autônoma sempre teria suas dúvidas. Ela era forçada a isso se não quisesse recair no dogma. A relatividade do conhecimento foi inserida no pensamento moderno. Mas, visto que, na paródia secular do pensamento divino, as leis universais ainda eram procuradas, a relatividade era vista como importuna. Hoje, a aceitação mais geral da visão de que nossas observações dependem de suposições, e de que essas suposições estão conectadas com cosmovisões e com posições de poder, faz com que a relatividade, para não dizer o relativismo, pareça mais natural. Os que têm uma propensão nietzscheana podem ver aqui a futilidade dos sonhos modernos de universalismo. O embrião do niilismo começou a se formar no ventre da modernidade.”(p.15)

“O pós-moderno, então, se refere acima de tudo ao esgotamento da modernidade. Como artifício analítico grosseiro, é interessante fazer a distinção entre pós-modernismo, quando a ênfase se dá sobre o cultural, e pós-modernidade, quando a ênfase recai sobre o social. (...) Dito de maneira simples, esses motivos se prendem à impossibilidade de separar o cultural do social, por mais desejável que a distinção possa ser.” (p.16 e 17.)

Friedrich Nietzsche (1844-1900)

“Um dos temas básicos do debate pós-moderno gira em torno da realidade, ou falta de realidade ou multiplicidade de realidades. O niilismo é o conceito nietzscheano que mais de perto corresponde a este sentido de realidade fluido e oscilante. Quando a irriquieta atitude de dúvida da razão moderna se volta para a razão em si, o resultado é o niilismo. Quer na arte e na filosofia, quer na ciência, a racionalidade é atacada pelo niilismo. Os assim chamados sistemas da razão, afirma Nietzsche, são na verdade sistemas de persuasão. Assim, as pretensões de ter descoberto a verdade são desmascaradas como sendo o que Nietzsche chamou de vontade de poder. Os que sustentam pretensões desse tipo colocam-se acima daqueles a quem elas são expostas, o que faz com que sejam dominados.” (p.18)

“Nietzsche alcançou notoriedade por proclamar a morte de Deus. Embora alguns tomem essa afirmação meramente como uma linguagem figurada para a perda dos fundamentos filosóficos, pode-se argumentar que ela representa também um antiteísmo sério. De qualquer modo, o slogan de Niezscthe a morte de Deus significa que não podemos mais ter certeza de nada. A moralidade é uma mentira, a verdade, uma ficção. Tudo o que resta é a opção dionisiana de aceitar o niilismo, de viver sem ilusões ou aparências, e de fazer isso com entusiasmo e alegria. A partir disso, a diferença entre verdade e erro deixa de existir, sendo uma mera ilusão. Outras bases para essa diferença – como Deus – são eliminadas, restando apenas nossa linguagem e seus conceitos.” (p.18 e 19)

Karl Marx

O que Niezscthe via como uma situação difícil para a ciência, para a racionalidade e para a metafísica, Marx atribuía às relações cotidianas banais da ordem econômica burguesa. Em outras palavras, sob o capitalismo as pessoas permitem que o mercado organize a vida, incluindo nossa vida interior. Equacionando tudo com seu valor de mercado – comercializando -, acabamos buscando respostas sobre o que tem valor, honra e mesmo realidade, no mercado público. O niilismo também pode ser entendido neste sentido prático, do dia-a-dia. No contexto pós-moderno, o uso que Marx e Engels fazem das palavras de Próspero em A Tempestade, “tudo o que é sólido se desfaz em ar”, tornou-se o novo texto preferido citado do Manifesto Comunista.

George Simmel (1858-1918)

“... Simmel engloba osmundos da sociologia e da análise cultural. Essa tragédia, ou crise da cultura, era para ele a lacuna que se ampliava entre a cultura objetiva, vista na tecnologia por exemplo, e o indivíduo cada vez mais alienado, frustrado na busca da individualidade autêntica.”(p.21)

“A sociologia da cultura de Simmel enfatiza a perda evidente de significado no mundo moderno do industrialismo, uma perda que ele associava, entre outras coisas, ao declínio do Cristianismo. Ele considerava os movimentos contemporâneos como o socialismo na política ou o impressionismo na arte como a resposta a uma necessidade sentida de um objeto final na vida, acima de tudo o que fosse relativo, acima do caráter fragmentário da existência humana. Mas em seu próprio diagnóstico da modernidade, ele procurou pintar um quadro do momento que passa da vida, em toda a sua aparente desconexão.”

Para Simmel, as experiências sociais da modernidade foram sentidas de maneira especialmente intensa nas metrópoles urbanas em crescimento e na alienação de uma economia monetária madura. E elas foram mais bem compreendidas em termos da vida interior dos indivíduos, provendo assim uma espécie de contraponto psicológico social à análise da sociedade capitalista feita por Marx. (...) Diferentemente de Marx, Simmel vê a esfera da circulação, troca e consumo como relativamente autônoma, uma lei em si. É o significado simbólico do dinheiro e das mercadorias que fascina Simmel. O apego crescente a esse mundo das coisas desvaloriza constantemente o mundo humano.

Simmel também comentou a autonomia da esfera cultural. Como a cultura objetiva – forma – milita cada vez mais contra a vida, Simmel desenvolve uma visão trágica em que, por exemplo, o matrimônio se torna meramente opressivo e sem vida ou a religião perde contato com crenças distintas e degenera em misticismo.”(p.23)

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