10/28/2009

O metodismo e a responsabilidade etnico-racial

Rev. Gercymar Silva
O metodismo esteve mais do que qualquer outro movimento de seu tempo preocupado com o ser humano e a sua integralidade, o que reflete a idéia de salvação social do indivíduo no amplo trabalho de desenvolvimento da salvação comunitária. John Wesley (1703-1791), um dos fundadores do metodismo e seu principal líder, entendeu a partir de um conselho espiritual que precisava fazer amigos e, ao lado deles, desenvolver a salvação [1]. A salvação para Wesley e os primeiros metodistas tinha, portanto, amplitude social e inclusiva.
Como qualquer outro grupo, a comunidade negra busca se adaptar aos tempos modernos sem perder conexão com a sua história e sua herança cultural. Um dos destaques essenciais da cultura africana é o sentimento de pertencimento ao grupo. Contudo, a luta para obter reconhecimento diante dos diversos segmentos sociais é árdua. A luta da comunidade negra é pelo direito de cultivar as suas tradições culturais e religiosas como tantas outras comunidades no Brasil.
Infelizmente não se comprova uma busca ávida pela reflexão sobre o tema da cultura africana (e afro-brasileira) no seio do metodismo, embora a Igreja Metodista reconheça o espaço de reflexão sobre a cultura de origem africana e afro-brasileira na expressão do ministério de combate ao racismo, o que são passos considerados significativos na comunidade metodista brasileira. No entanto, ainda se realiza muito pouco em relação à afirmação de grupo e à afirmação étnica.
A presente reflexão busca assim realçar a contribuição de John Wesley no combate à escravidão no século XVIII. Tal contribuição é vista como intenção de valorização da diversidade cultural, dentro da amplitude do tema Direitos Humanos, como indicou Theodore Runyon, na obra "A Nova Criação: a teologia de John Wesley hoje". É preponderante lembrar que John Wesley refutou vigorosamente a prática da escravidão no contexto do século XVIII, considerando-a como a mais vil já vista debaixo do sol.
No que tange ao surgimento do metodismo, é oportuno relembrar que
Os metodistas de Oxford, no início da década de 1730, quase todos homens da universidade, haviam gasto boa parte de seu tempo, dinheiro e energia no ministério de misericórdia para com o pobre – educando as crianças nos albergues, levando alimento aos necessitados, fornecendo lã e outros materiais com os quais as pessoas pudessem fazer roupas e outras coisas duráveis para usar ou vender. Esta ênfase particular em “amar o próximo” e seguir o exemplo de Cristo (que andou por toda a parte fazendo o bem”, atos 10:38), continuou a caracterizar o metodismo, quando ele entrou no reavivamento [2].
Para Heitzenrater, “o reavivamento evangélico na Inglaterra fazia parte de um movimento muito maior do Espírito por todo o mundo. O pietismo alemão, do fim do século dezessete, o grande despertamento americano, no início do século dezoito, estavam entre os precursores do reavivamento inglês” [3]. Assim, a entrada do metodismo no reavivamento é admitida entre 1739-1744, tendo Whitefield como a figura pública mais conhecida e um dos pregadores metodistas mais vibrantes. É necessariamente isso que o tornou alvo predominante da literatura dirigida contra os entusiastas, que também foram apelidados de “metodistas”.
Conforme Heitzenrater ainda, Wesley partiu para o trabalho em Bristol em março de 1739. A propósito, Bristol ocupa um espaço especial na agenda de ação dos primeiros metodistas. Uma leitura do metodismo na América Latina atribuiu a Bristol o quarto estágio do surgimento do metodismo. É em Bristol que surge a primeira sociedade nominalmente metodista. Porém, Bristol era apenas uma pequena cidade com um centro comercial em desenvolvimento, localizada no sudoeste da Inglaterra.
É fato que Bristol “estava crescendo para ser uma cidade interiorana líder no reino e o porto para o comércio com a América do Norte e com as Índias Ocidentais” [4]. Era precisamente do porto de Bristol que os “mercadores importavam tabaco e açúcar e exportavam produtos manufaturados e escravos africanos (grifo meu) [5].
As “Regras e exercícios para um morrer santo”, de Jeremy Taylor [6], que alimentaram inicialmente a peregrinação espiritual de John Wesley, um dos principais líderes do metodismo, acompanharam-no até os seus momentos derradeiros. A santidade social reacende o interesse pelo ser humano, fundamentando uma responsabilidade étnico-racial no metodismo primitivo.
É muito comum referências a John Wesley e a William Wiberforce [7] quando o contexto da leitura ou da discussão é o tema da escravidão em Wesley. A escravidão americana foi considerada pelo fundador do metodismo como a mais execrável das vilanias existentes debaixo do sol [8]. A propósito, a carta de Wesley a Wilberforce constava de um encorajamento ao parlamentar inglês, em sua luta contra o comércio de escravos. Neste momento histórico, Wilberforce estava por abandonar a carreira política e Wesley estava com 88 anos de idade, vivendo seus derradeiros dias.
Conforme se tem notícia, um dos últimos registros no diário de Wesley alude a leitura de Gustavus Vasa, a vida de um antigo escravo de Barbados, Olaudah Equiano [9]. No dia seguinte, inspirado pela leitura de Vasa, Wesley escreveu a última de suas cartas, a carta a William Wilberforce, datada de 24 de fevereiro de 1791 [10], encorajando-o a lutar contra escravidão, considerando que Deus o tinha levantado como levantou Atanásio contra o mundo [11].
Na carta, Wesley encoraja Wilberforce a continuar combatendo o comércio de escravos, com as seguintes palavras: “Continúe, en el nombre de Dios en el poder de su fuerza, hasta que la esclavitud americana (la más vil que se ha visto bajo el sol) desaparezca ante ese poder” [12]. Wesley tencionou observar na carta à Wilberforce que Deus o tinha levantado para combater tal vilania. O interesse pelo ser humano fundamenta no metodismo primitivo aquilo que podemos chamar hoje de responsabilidade étnico-racial.
José Carlos de Souza sugeriu que “a identidade metodista” não é “um legado definitivamente estabelecido ad eternum”, mas também definiu que Wesley não aceitaria “passivamente a transformação da identidade e teologia metodistas numa formulação estática, arrancada inteiramente da trama histórica” [13]. Ao lado, é possível recuperar umas das maiores contribuições da teologia wesleyana para a atualidade: a vivência atualizada da fé, inicialmente confessada nos credos.
A carta a Wilberforce representa um símbolo da preocupação do metodismo nascente com a questão escravista. A propósito, Wesley faleceu exatamente em 2 de março de 1791. Seu trabalho “Pensamentos sobre a escravidão” (1774), surgido quando ninguém ousava atacar o sistema escravista da Inglaterra, é vigoroso em condenar a escravidão e defender a abolição da escravatura nas terras inglesas [14].
Um exame da história do povo chamado metodista comprovaria facilmente, conforme José Carlos de Souza, que “Wesley estava profundamente integrado à sua época e procurou, em nome do Evangelho, responder às questões que a sociedade inglesa contemporânea consciente ou inconscientemente levantava” [15]. Não será demais admitir que o pensamento e a teologia que produzia estava em diálogo e em conexão com “as manifestações religiosas mais expressivas do pensamento religioso e da cultura em geral” [16], o que favorece uma leitura teológica mais sistematizada do combate à escravidão em Wesley.
Conforme Gonzalo Bàez Camargo, “em 1771, [Wesley] publicou seu sério discurso ao povo da Inglaterra sobre o estado da nação” [17]. Wesley voltava-se contra o comércio de escravos, utilizando as seguintes palavras: “Rogo a Deus – exclamava – que já não exista isto! Que jamais roubemos e vendamos a nossos irmãos como bestas! Que já não os assassinemos por milhares e dezenas de milhares! Oh! que se tire de nós outros para sempre esta abominação pior que a maometana, pior que pagã! Desde que a Inglaterra é uma nação, nunca houve algo que possa reprová-la tanto como o ter participação neste tráfico detestável... A destruição total e final deste horrível comércio encherá de júbilo a todo aquele que ame a humanidade[18].
É urgente a elaboração de uma reflexão teológica que contemple efetivamente as expressões culturais do povo negro, assim como o modo de expressar sua fé, olhando a missão como princípio material de uma teologia que está se redefinindo em sentido eclesiológico, tendo a cultura como um parâmetro. Como lembrou Josuel dos Santos Boaventura, “a centralidade da mensagem cristã, de uma forma indireta, encontram-se presentes nas ‘outras religiões’ que contêm sementes do Verbo” [19].
A discussão sobre a cultura de origem africana e afro-brasileira requer, por sua vez, mais do que o mero ingresso nas discussões sobre a temática; requer uma reflexão permanente; requer conexão entre fé e conduta, assim como entre ensinamento e prática ou pensamento e experiência. É imperativo, como cristãos, expressarmos uma teologia com autenticidade cristã no tocante a preocupação com o valor da cultura de origem africana e afro-brasileira, assim como no combate ao pré-conceito e ao racismo existente no seio das comunidades e nos seus arredores.
Não é novidade que a comunidade negra foi e ainda é preponderantemente marginalizada pela história e pelo comportamento protestante brasileiro. Um exemplo claro é “demonização” dos ritmos africanos, no que se refere ao quesito música, para não falar de tantos outros pré-conceitos repassados pelo axioma teológico protestante brasileiro, preponderantemente influenciado pela herança missionária e eclesial do Sul dos Estados Unidos, nossa matriz e uma das principais referências no século XIX do protestantismo de missão implantado no Brasil.
Porém, é justamente na América do Norte que eclodiu a teologia negra, uma das maiores expressões de valoração da cultura africana que, embora tenha se desenvolvido a partir de motivações econômicas, sociais, políticas e raciais, forjou na experiência religiosa e na cultura suas premissas teológicas, confrontando uma nação e seus valores históricos com uma perspectiva cristã de que Deus também é negro [20]. Nos Estados Unidos, o movimento negro nasceu e cresceu como Teologia e Igreja.
É inegável, por sua vez, a importância que o tema da diversidade cultural assume no final do século XX e no século presente. A importância não é devida somente à formulação de políticas públicas como valor a ser compartilhado por todos; é fundamental, sobretudo, pelo valor e consistência que ostenta em vários segmentos da reflexão, não só nos segmentos acadêmicos.
À modo de conclusão a esse item, poderia se dizer que uma leitura do combate à escravidão em John Wesley não se resume a esses fragmentos, embora eles se constituam históricos e fundamentais para uma leitura teológica, assim como para observação do cumprimento da fé, evidenciando a conexão entre fé e conduta, assim como entre ensinamento e prática ou pensamento e experiência, como já delineamos.
· Gercymar Wellington Lima e Silva é pastor metodista e especialista em estudos wesleyanos (Umesp e Unimep-SP).
· Contato: gercymar@gmail.com


Notas:
[1] Cf. Rui de Souza Josgrilberg, “A motivação origninária da teologia wesleyana: o caminho da salvação”, in: Caminhando: revista da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, v. 8, n. 12, 2° sem/2003, p. 109-110.
[2] Cf. Richard P. Heitzenrater, Wesley e o povo chamado metodista, p. 125.
[3] Cf. Richard P. Heitzenrater, Wesley e o povo chamado metodista, p. 97.
[4] Cf. Richard P. Heitzenrater, Wesley e o povo chamado metodista, p. 98.
[5] Cf. Richard P. Heitzenrater, Wesley e o povo chamado metodista, p. 98-99.
[6] Cf. Richard P. Heitzenrater, Wesley e o povo chamado metodista, p. 308.
[7] William Wilberforce foi um membro do Parlamento inglês. Combateu a escravidão até aos seus últimos dias de vida. O sistema escravista só foi declarado ilegal nas colônias inglesas em 1833, um ano após a morte de Wilbeforce.
[8] Cf. Richard P. Heitzenrater. Wesley e o povo chamado metodista, p. 308.
[9] Cf. Richard P. Heitzenrater, Wesley e o povo chamado metodista, p. 308.
[10] Cf. J. Wesley, em: Justo L. González (ed.), Obras de Wesley, Tomo XIV, p. 300-301.
[11] Atanásio é mencionado em conexão com o Concílio de Nicéia. Conforme Bengt Hägglund, Atanásio foi um dos homens mais zelosos na defesa da fé, no conflito da Igreja contra o arianismo e o poder imperial que apoiava os heréticos. Na luta contra o arianismo, Atanásio desenvolveu a doutrina eclesiástica da Trindade e do Logos. Para uma compreensão sintética do que foi o arianismo, deve-se lembrar que os partidários de Ário negavam a divindade de Cristo e a salvação operada por Ele.
[12] Cf. J. Wesley, em: Justo L. González (ed.), Obras de Wesley, Tomo XIV, p. 301.
[13] Cf. José Carlos de Souza, “Fazendo teologia numa perspectiva wesleyana”, in: Caminhando: revista da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, v. 8, n. 12, 2° sem/2003, p. 126-127.
[14] Cf. Gonzalo Baèz Camargo, Gênio e espírito do metodismo wesleyano, p. 53.
[15] Cf. José Carlos de Souza, “Fazendo teologia numa perspectiva wesleyana”, in: Caminhando: revista da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, v. 8, n. 12, 2° sem/2003, p. 127.
[16] Cf. José Carlos de Souza, “Fazendo teologia numa perspectiva wesleyana”, in: Caminhando: revista da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, v. 8, n. 12, 2° sem/2003, p. 127.
[17] Cf. Gonzalo Baèz Camargo, Gênio e espírito do metodismo wesleyano, p. 53.
[18] Cf. Gonzalo Baèz Camargo, Gênio e espírito do metodismo wesleyano, p. 54.
[19] Josuel dos Santos Boaventura, “Comunidade afro e experiência cristã”, in: Teocomunicação, v. 37, n. 155, 2007, p. 61.
[20] Cf. Rosino Gibellini, A teologia do século XX, p. 398.

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