10/28/2009

O metodista e o católico

RESUMO: O texto procura apresentar um debate histórico e teológico sobre o envolvimento do metodismo nos movimentos pró-unidade cristã. Especialmente, trata da relação entre metodistas e católicos e reflete, a partir do pensamento e prática de John Wesley, elementos que orientem a caminhada do metodismo brasileiro frente à questão ecumênica.
 

PALAVRAS-CHAVE: Metodismo – John Wesley - ecumenismo – história do ecumenismo – unidade cristã.

Introdução

No XVIII Concílio Geral, a Igreja Metodista decidiu por não participar de quaisquer organismos que tenham a participação efetiva da Igreja Católica. Apesar disto, é consenso de muitos que os metodistas brasileiros não deixaram de ser ecumênicos. As tensões e obstáculos que dificultam a unidade entre os cristãos parecem ter se intensificado na atualidade. Vale ressaltar que os próprios metodistas, na busca de retomada da evangelização e do discipulado, não tem conseguido conciliar sua prática missionária ao diálogo ecumênico. A Igreja se vê desafiada a pensar uma “teologia e estratégia de missão” que tenha como fruto, tanto a motivação das comunidades a dar testemunho do Evangelho e alcançar tantas pessoas carentes do Evangelho de Cristo, quanto proporcionar maior aproximação entre os cristãos.
 

Neste contexto, propomos esta reflexão sob o título “O metodista e o católico”, procurando melhor compreender os avanços, retrocessos e desafios do diálogo entre metodistas e católicos. Não pretendemos aqui expor juízo próprio acerca das resoluções conciliares. Queremos sim, insistentemente, propor um debate sobre a questão ecumênica, conscientes que o metodismo não encerrou sua caminhada na luta por unidade cristã nas terras brasileiras.

Avanços e retrocessos na luta por unidade cristã no Brasil

Na tentativa de definição de um tema para este artigo, vieram à memória algumas situações que marcaram a luta pela unidade cristã no decorrer da história do metodismo brasileiro. Em especial, mencionamos o livro publicado em 1839, pelo Padre Luís Gonçalves dos Santos, como uma espécie de crítica ao trabalho do missionário metodista no Brasil, o Rev. Justin R. Spaulding. Neste livro, o padre chegou a dizer que “os metodistas são, de todos os protestantes, os mais laxos e imorais (ÁRIAS, p.82)”. Não dá pra negar que, naquele período, a presença dos missionários protestantes na Capital do Império do Brasil [Rio de Janeiro] causou grande desconforto ao clero Católico Romano.

A partir de 1867, o metodismo retornou às terras brasileiras por meio do trabalho do Rev.Newman, que se dedicou mais aos cultos e atendimento pastoral dos imigrantes de fala inglesa que residiam no interior de São Paulo. No entanto, o Rev.Newman recomendou insistentemente aos metodistas dos Estados Unidos que assumissem a frente missionária no Brasil, objetivando a evangelização dos filhos desta terra. Foi então que o missionário escreveu uma carta para a Igreja norte-americana em 10 de outubro de 1869, onde

"... estranha que a Igreja Metodista e a Episcopal do Sul até o momento não tenham iniciado aqui trabalho missionário, mas apelava às suas autoridades em tal sentido. Sugere que os ministros a serem enviados sejam homens de bons talentos e de sã piedade, desejosos de pregar Cristo ao invés de combaterem a Igreja Romana [grifo deste autor]" (SALVADOR, p.57).

Com estas palavras, o Rev.Newman explicitou sua preocupação que os missionários metodistas, a despeito de todo e qualquer preconceito que já tenham sofrido no passado ou que ainda viessem a sofrer naquele momento, tivessem o desejo sincero de testemunhar do Evangelho de Cristo, sem, contudo, incorrer no erro de outros grupos protestantes no Brasil, que não resistiam à tentação de retribuir aos católicos romanos com a mesma moeda do preconceito e da perseguição. Como seria incoerente que a mesma boca que prega sobre o amor de Cristo desandasse a proferir críticas e julgamentos vorazes para com um irmão de outra confissão cristã?

Mas essa, infelizmente, é a marca que o cristianismo brasileiro tem carregado: a do conflito entre as denominações cristãs. Essa postura possui raízes tanto nas tensões da Reforma Religiosa do século XVI, como na teologia de missão do protestantismo norte-americano. Mesmo os metodistas são conhecidos por terem distorcido a concepção wesleyana de “renovação evangélica” ao concordarem com a “polêmica anti-católica”. No Brasil, as tensões religiosas ocorridas deste o século XIX fizeram com que os protestantes (ou evangélicos) assumissem sua identidade a partir da negação do catolicismo, e não, prioritariamente a partir da afirmação de suas doutrinas e espiritualidade.

Na tentativa de diluir esta tensão, durante todo o século XX, várias iniciativas foram tomadas no Brasil. Dentre outros fatos, temos a criação da Associação das Escolas Dominicais do Brasil, em 1911, que em 1918, foi transformada no Conselho Evangélico de Educação Religiosa no Brasil. Como importante resultado do Congresso do Panamá e da organização das conferências regionais nas principais capitais latino-americanas, foi criada, em 1918, a Comissão Brasileira de Cooperação sob a liderança do pastor presbiteriano Erasmo Braga. Em 1933, mais um passo importante foi dado com a fundação da Federação de Igrejas Evangélicas do Brasil, que tinha como objetivos a defesa da liberdade religiosa, a proteção de missões estrangeiras e o posicionamento das Igrejas evangélicas frente a questões de ordem pública.

Como fruto da união das três organizações interconfessionais existentes, em 19 de junho de 1934, surgiu a Confederação Evangélica do Brasil (CEB).

"Das igrejas-membros faziam parte, inicialmente, quatro grandes denominações (duas presbiterianas, a Igreja Metodista e a Igreja Episcopal (...). A IECLB [Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil] só se associou à CEB em 1959 (...). Os batistas não eram membros da Federação. Das igrejas pentecostais faziam parte a Igreja do Evangelho Quadrangular (a partir de 1963) e a Igreja Evangélica Pentecostal “O Brasil para Cristo” (a partir de 1968)". (Gerhard TIEL, pp. 46-47).
 

A Confederação Evangélica Brasileira desenvolveu seus trabalhos até o período do Golpe de 1964, quando sofreu uma grande crise desencadeada pelos mecanismos de repressão da Ditadura Militar. Por outro lado, mesmo durante o período dos governos militares, outras iniciativas confirmavam os desejos de unidade cristã e a luta pela liberdade do povo no Brasil e na América Latina. Nessa linha de pensamento e ação, foi organizado oficialmente em 1982, em Huampiní – Peru, o Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI). No mesmo ano, no dia 18 de novembro, numa assembléia geral constitutiva realizada em Porto Alegre, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) foi solenemente fundado.

"Foram membros fundadores [do CONIC]: 1) a Igreja Católica; 2) a Igreja Cristã Reformada do Brasil; 3) a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil; 4) a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil; 5) a Igreja Metodista. Na 2a Assembléia Geral (1986) foi aceita como membro a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e, na 4a Assembléia Geral (1990), a Igreja Católica Ortodoxa Siriana.[grifo deste autor]". (Gerhard TIEL, pp. 63)

A organização do CONIC marcou uma importante aproximação entre protestantes e católicos brasileiros. Esta aproximação foi possível visto que muitos integrantes de ambos os seguimentos do cristianismo comungavam dos ideais de que, juntos, poderiam manifestar de forma concreta o amor de Deus na sociedade brasileira, denunciando e lutando contra a maldade incrustada nas estruturas sócio-econômicas, sendo voz profética numa cristandade capitalizada e apática diante do clamor dos oprimidos e injustiçados. No entanto, enquanto alguns ramos do protestantismo continuaram abertos para o diálogo, tantos outros reassumiram uma postura cada vez mais anti-católica, sobretudo com o crescimento do seguimento pentecostal ou de renovação (a partir da década de 1980).

A tendência contrária a um autêntico diálogo entre os cristãos também está presente no catolicismo. O desconforto com a inserção do protestantismo durante o Brasil Império aumentou significativamente a partir da década de sessenta, com enfraquecimento das comunidades católicas perante o grande crescimento das comunidades evangélicas pentecostais. Sobretudo após o Concílio Vaticano II, promoveu-se um movimento de reafirmação da identidade da Igreja Católica Romana no Brasil, ocorrendo também o fortalecimento de grupos conservadores e anti-ecumênicos.

Analisando o interesse da Igreja Católica na unidade cristã, o professor de Teologia Ecumênica Jos Vercruysse menciona duas tendências mais fortes: o ecumenismo e o unionismo. Na primeira tendência, tem-se como objetivo a diminuição dos conflitos e intrigas entre as denominações cristãs que geram escândalo para os povos não cristãos; também, busca-se o estabelecimento de parcerias na realização da obra missionária, especialmente nos trabalhos sociais.

Na segunda tendência, crê-se que “a unidade dos cristãos só pode realizar-se no seio da Igreja católica romana, pela aceitação de todas as verdades que esta Igreja considera reveladas, inclusive a própria infalibilidade do Pontífice romano...” (CH. Boyer apuld VERCRUYSSE, p.64). Os unionistas foram enfraquecidos no Vaticano II, porém, voltaram a ter força a partir da década de 1990. Seguindo esta tendência, teolólogos oficiais do Catolicismo se apropriaram e re-significaram a proposta ecumênica, propondo que a busca de unidade cristã seria um meio pelo qual, passo-a-passo, as outras denominações cristãs seriam reconduzidas para debaixo da autoridade do Bispo de Roma (o Papa).

Exemplo disso é a Declaração Dominus Iesus, que afirma: “Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica – radicada na sucessão apostólica – entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica” (Dominus Iesus). A Declaração Dominus Iesus evidencia uma postura reacionária a um autêntico diálogo ecumênico e, definitivamente, não representa a proposta do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), que parte do pressuposto que nenhuma Igreja, enquanto instituição humana, pode reivindicar para si o título de única e verdadeira representante de Cristo.

Este acirrar das tensões e fortalecimento das posturas fundamentalistas torna cada vez mais inviável o ecumenismo institucional. A caminhada pró-unidade cristã fica sob a responsabilidade de lideranças específicas, de alguns organismos paraeclesiásticos e de grupos populares, configurando o que muitos denominam de ecumenismo de base.

E os metodistas? O que a herança wesleyana nos aponta como alternativa para a presente crise de unidade na Igreja de nosso Senhor Jesus? No próximo ponto de nossa reflexão, buscaremos algumas respostas para esta questão.

O Metodismo: uma gênese ecumênica

A luta pela unidade dos cristãos é uma característica do movimento metodista, que durante a história têm se portado de forma tolerante perante outros grupos cristãos, mesmo os que divergiam dos costumes e convicções metodistas. Atualmente, muitos cristãos encontram extrema dificuldade de conviver de modo tolerante, pois consideram as diferenças doutrinárias um empecilho para o diálogo e para a Comunhão. Há uma dificuldade de se estabelecer uma síntese entre convicção e tolerância.

Muitos temem que o diálogo ecumênico coloque suas convicções em cheque sua fé, suas convicções. Wesley não sofria desse temor, pois não tinha uma fé meramente firmada na aceitação não refletida de dogmas. A teologia de Wesley era resultado de uma ávida, sincera e ininterrupta busca da verdade sobre Deus e Seus desígnios salvíficos para toda a criação. Chega-se a afirmar que Wesley era homem de fortes convicções, mas que, na atualidade, muitos metodistas têm adotado certa frouxidão bíblica e teológica que lhes serve de condição para aceitar e conviver com aquele(a) que, em algum nível, discorda de seus pensamentos. Então perguntamos: será que todo o cristão que tem uma forte convicção doutrinária e uma identidade definida tem por obrigação ser intolerante? Afirmar a identidade cristã-metodista significa recusar-se a demonstrar amor e tolerância para com o diferente? Não.

Na história do metodismo, um líder religioso como João Wesley, de forte temperamento e repleto de convicções e ideais, pôde influenciar um grande número de pessoas e, ainda assim, ter uma louvável abertura para dialogar, se relacionar e, inclusive, aprender com um cristão que não partilhava da mesma confissão de fé.

A única possibilidade de compreender a formação do pensamento e da prática de Wesley e dos metodistas no século XVIII está em aceitar o fato de que o metodismo não nasceu pronto, pelo contrário é resultado da capacidade wesleyana de dialogar e aprender com outros grupos cristãos. De sua infância até o período do amadurecimento do metodismo enquanto movimento (1744), Wesley recebeu influências das mais diversas. Aqui destacamos a influência dos Puritanos, da teologia tomista, das igrejas separatistas (ou igrejas livres), dos místicos católicos, da filosofia aristotélica, do arminianismo, do pietismo (alemão e inglês), da ortodoxia oriental (teologia patrística), e outros.

Como pertencente à Igreja Anglicana, Wesley teve como importante herança a capacidade de estabelecer sínteses, buscando sempre preservar a unidade da Igreja. Wesley compreende claramente que nenhum grupo é detentor de uma verdade absoluta sobre Deus e a religião. Seu conservadorismo não se manifestava numa absoluta rigidez doutrinária, mas sim na defesa de premissas essenciais da fé e da conduta cristã. Outros elementos tanto da teologia como da prática da Igreja estavam sujeitos à crítica e reforma, caso fossem encontradas alternativas teológicas e práticas que estivessem de acordo com a Palavra de Deus e que melhor correspondessem aos anseios de seu tempo.

Como é importante estarmos abertos para aprender com o diferente. É vital para o crescimento espiritual ter a capacidade de submeter nossas convicções à crítica, de modo que sejam reformuladas ou reafirmadas, segundo a medida de verdade que nelas há e segundo sua coerência com as Escrituras. Historiadores e teólogos reconhecem em Wesley essa capacidade de compreender e assimilar elementos de outros grupos cristãos, uma vez que lhe fosse comprovado que a vontade de Deus ali se manifestava. Daí por que o metodismo wesleyano sempre se empenhou em preservar a unidade, mesmo na diversidade de idéias e/ou interpretações da fé cristã.

Muito de fala da necessidade de se resgatar ou recriar a identidade original do metodismo. Porém, a de se convir que o fortalecimento da identidade metodista não implica na negação da contribuição que outros grupos cristãos da atualidade têm a oferecer. Uma postura dogmática, arbitrária, sectária e/ou auto-suficiente inviabiliza toda e qualquer tentativa de se forjar uma igreja fiel ao gênio e à dinâmica do metodismo histórico. Isto nos sugere, portanto, que o engajamento dos metodistas brasileiros no movimento pró-unidade cristã simplesmente vem confirmar a sua identidade.

O metodista e o Católico Romano

Que tipo de relação deve acontecer entre os metodistas e os católicos romanos no Brasil? Ha muitos anos os metodistas brasileiros não têm uma resposta unânime para esta pergunta.

Existem aqueles que são a favor de um diálogo ecumênico que possibilite ações conjuntas na promoção do Reino de Deus. Para estes, cabe à Igreja Metodista e aos evangélicos manterem um diálogo entre si e com os católicos, tanto em nível institucional como nas bases. No entanto, mesmo entre os pertencentes ao grupo pró-ecumenismo, distinguem-se aqueles que julgam importante que o diálogo ecumênico envolva somente as iniciativas de cunho social, de outros que julgam necessário que também se firme um diálogo de cunho celebrativo.

Segundo Theodore Runyon,

“Ecumenismo é o esforço para vencer as barreiras e conflitos entre igrejas-membros da família cristã, manifestar a unidade do Corpo de Cristo e honrar não apenas retoricamente, mas na realidade, a oração sacerdotal de Jesus: a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam um em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste (Jo 17.21)”. [RUNYON, Theodore, p. 258].

Existem ainda aqueles que defendem o não envolvimento dos metodistas em qualquer tipo de aproximação ou diálogo com a Igreja Católica. Esse grupo parte do pressuposto que a Igreja Católica não se manteve fiel à Palavra de Deus e afirma que os metodistas devem evitar maiores aproximações no campo religioso. Uma posição ainda mais radical faz parte do consenso evangélico no Brasil, de que a pessoa que professa a fé católica não tem a salvação e, para alcançá-la, é preciso que professe a fé de alguma denominação evangélica.

Apresentamos aqui a postura adotada por Wesley no diálogo com os católicos romanos. Os textos essenciais que retratam a postura adotada por Wesley são: “Carta a um Católico Romano”, onde Wesley procura demonstrar a um católico que não há motivos para que ele sinta qualquer tipo de preconceito para com um metodista, esclarecendo-lhe os aspectos centrais da fé e conduta de um protestante. Nos outros dois textos – “Um Catecismo Católico Romano Tomado Fielmente dos Textos Autorizados pela Igreja de Roma” e “Uma Visão Desapaixonada do Catolicismo Romano” – Wesley procura refutar pontos doutrinários defendidos pelos católicos que distam da teologia bíblica e não possuem fundamento na história da Igreja primitiva, como pode ser observado a seguir:

"1. Los católicos romanos consideran que para alcanzar la salvación es necesario someterse a la autoridad del Papa como única cabeza visible de la Iglesia. Sin embargo, leemos en las Escrituras que Cristo es la Cabeza de la Iglesia, <>. La Escritura no hace referencia a que el Papa lo sea, y menos aun que sea necesario someterse a su autoridad para alcanzar la salvación. 2. Los católicos romanos dicen que el Papa es el Vicario de Cristo, el sucesor de San Pedro, que tiene poder supremo en la tierra sobre toda la Iglesia. A esto respondemos que Cristo no confirió tal poder ni al mismo San Pedro. A ningún apóstol le dio poder sobre el resto. Es más, el propio San Pablo, lejos de reconocer la supremacía de San Pedro, se enfrento con el (ver Gá. 2.11) y defendió su posición sintiendo que en nada era inferior a aquellos ". (OW, Tomo VIII, pp.245 e 246).

Influenciado pela teologia protestante, Wesley apresentou duras contestações à eclesiologia e à soteriologia católicas. Wesley via como necessário esclarecer as diferenças entre a fé metodista e a fé católica.

Também, é importante destacar que não somente para com os católicos romanos Wesley demonstrou e firmou suas convicções. Mesmo entre os próprios protestantes haviam aspectos doutrinários não aceitos e contestados de forma madura, ainda que contundente. Assim ocorre quando Wesley defende a predestinação condicional (doutrina arminiana) perante a predestinação absoluta apresentada pelos calvinistas. Ele também firma suas convicções perante os pietistas alemães (morávios), dos quais tanto aprendeu, mas que não se satisfez com todas as explicações que eles apresentaram sobre a justificação e santificação do cristão. Contra as normas estabelecidas pela Igreja Anglicana, Wesley estimulou a pregação ao ar livre e, ainda mais, capacitou e enviou leigos para que espalhassem o fermento da “santidade” por meio da pregação da Palavra.

Wesley assumia uma identidade doutrinária. Entretanto, como já discutimos acima, ter ele uma identidade não implicou em negar elementos positivos da identidade dos outros grupos cristãos. Essa postura é demonstrada na “Carta a um Católico Romano”, onde Wesley inicia sua reflexão apresentando uma séria preocupação com a tensão existente entre católicos e protestantes.

"Usted ha escuchado miles de historias referidas a nosotros, los protestantes, como comúnmente se nos llama. Si usted cree una sola de todas esas historias, debe tener muy mala opinión de nosotros. Pero esto es contrario a la regla de nuestro Señor ; No juzguéis, para que no seáis juzgados ; [Mt 7.1], y, además, trae aparejado consecuencias perniciosas. Uma de las más evidentes es que tambíen nos mueve a nosotros a pensar mal de ustedes. Esto hace que nos encontremos, unos y otros, menos dispuestos a ayudarnos y más dispuestos a lastimarnos. De este modo, el amor fraternal desaparece por completo, y cada uno de las partes, al considerar que la outra es poço menos que um monstruo, da rienda suelta a la ira, ódio, resentimientos, y toda clase de sentimientos negativos, que em varias oportunidades han desembocado em comportamientos tan bárbaros e inhumanos como rara vez se han registrado entre los paganos [Grifo deste autor]" .( OW, Tomo VIII, p. 169)

Ainda neste diálogo, Wesley indaga:

"Ahora bien, ¿no prodremos hacer algo, aun aceptando que ambas partes mantengan sus propias opiniones, para albergar en nuestros corazones sentimientos más positivos los unos por los otros?" ( Idem)

E, para concluir, fazemos menção a uma carta, onde Wesley discorre sobre a polêmica decisão de não separar-se da Igreja da Inglaterra. No parágrafo introdutório, ele escreve ao seu irmão: “Si estás de acuerdo conmigo, bien; si no, podemos (como decía el Sr.Whitefield) concordar en estar en desacuerdo” (OW, Tomo XIV, p. 223). A exemplo do Concílio de Jerusalém em Atos 15 (onde discutiram sobre a tensão cultural entre cristãos-judeus e cristãos-helênicos), Wesley manifesta a disposição de não permitir que as opiniões contrárias provoquem cisões, ou mesmo desafetos entre irmãos de caminhada cristã. Portanto, fica claro que Wesley está mais preocupado com os sentimentos que com as opiniões. Ele valoriza suas próprias convicções, mas não as coloca acima das pessoas, muito menos acima da comunhão entre os próprios cristãos.

Conclusão
No Brasil e no mundo, mais e mais metodistas têm se dedicado ao exercício hermenêutico de retornar às origens, escarafunchar as Escrituras, a história e a teologia wesleyana. Quando recorremos à história da Igreja cristã e, especificamente, do movimento metodista, sempre caímos na tentação de lermos a história de acordo com as opiniões que temos hoje. De modo que, toda pessoa que reconta a história, o faz de forma relativamente comprometida. Podemos dizer que cada um conta a história do seu jeito.

Porém, existem fatos históricos que não podem ser negados (ou camuflados), devido sua evidência documental. Não há como negar que o metodismo wesleyano possuía uma preocupação com a unidade cristã. Negar isto equivale a rejeitar uma faceta importante da história, da teologia e da própria identidade (carisma) do povo chamado metodista. Desta feita, a caminhada metodista no Brasil não deve retirar a unidade cristã de sua agenda conciliar. Outras tantas vezes devemos retomar a questão, passo a passo, na busca de caminhos alternativos para o estabelecimento de um diálogo saudável e construtivo com outras denominações cristãs (seja com evangélicos ou com católicos).
Para concluir esta reflexão, tomamos como nossas as palavras de Dom Helder, proferidas no discurso de Formatura da Faculdade de Teologia, em 1967:

Para que insistir nesta linha de considerações, se tudo isso parece sonho de sonho, fantasia de fantasia? ... Sonho de Sonho, fantasia de fantasia, porque nós cristãos não nos decidimos, ao menos nós, a viver em plenitude de amor (Expositor Cristão. ANO 83 – No 1 e 2, p. 13).

Bibliografia
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HEITZENRATER, Richard P. Wesley e o povo chamado metodista. São Bernardo do Campo/Rio de Janeiro: Editeo/Bennett, 1996.

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Igreja Metodista. Expositor Cristão. Órgão Oficial da Igreja Metodista do Brasil. ANO 83 – No 1 e 2, 1o a 15 de janeiro de 1968.

RUNYON, Theodore. A nova criação: a teologia de João Wesley hoje. São Bernardo do Campo: Editeo, 2002

SALVADOR, José G. História do metodismo no Brasil. S.B.Campo: Imprensa Metodista, 1982.

TIEL, Gerhard. Ecumenismo na perspectiva do reino de Deus. São Leopoldo: Sinodal/Cebi, 1998.

VERCRUYSSE, Jos. Introdução à Teologia Ecumênica. Coletânea: Introdução às Disciplinas Teológicas (IDT) Organizador: Gino Fisichella, São Paulo: Loyola, 1998.

VV.AA. Luta pela vida e evangelização: a tradição metodista na Teologia Latino-Americana. São Paulo: Paulinas/
UNIMEP, 1985.

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