10/28/2009

O tribalismo e as cidades-estado no Antigo Testamento

Introdução

O povo de Deus na América Latina tem se defrontado com numerosos desafios. Um dos maiores tem sido a maneira de lidar com as influências da globalização econômica e cultural, que se utiliza das evoluções tecnológicas no ramo da comunicação para impor uma moral e um estilo de vida firmados nas lógicas do capitalismo global. Trata-se de uma imposição ideológica sem precedentes, firmada numa nova concepção de espaço-tempo, na velocidade da informação e nas mais eficientes técnicas de marketing.

Para que conheçamos o significado da mensagem bíblica, faz-se necessário observar o sentido histórico do texto, ao levar em consideração o ambiente econômico, social, político e ideológico-religioso onde se dá a revelação do Espírito. Sabemos que a hermenêutica bíblica alegórica toma o sentido literal como mera representação de um sentido espiritual supostamente mais “elevado” ou “importante”, retirando do texto sua historicidade, permitindo que o leitor se aproprie do texto sem considerar seu sentido original – um texto sem chão.

Percebemos que desde os tempos mais remotos o povo de Deus se defrontava com mecanismos de imposição ideológica que pretendiam convergir o pensamento de populações de diversas matizes culturais, colocando-as a serviço de projetos imperialistas. Esta é a tônica de Gênesis 11 (Torre de Babel), que denuncia como perniciosos intentos da Babilônia se firmavam na mesma linguagem e no mesmo modo de falar. Ali, a ação de Deus está em confundir-lhes a linguagem, isto é, subverter conceitos e valores dos dominantes ao ponto de fazer nascer uma nova consciência alimentada pelos princípios do Reino de Deus.

Portanto, a caminhada do povo de Deus no Antigo Testamento oferece muitos subsídios para as lutas enfrentadas na atualidade. Sobretudo quando buscamos compreender o tribalismo, pois é nesta maneira de organização social que encontramos condições para que esta nova consciência do Reino de Deus se estabeleça de modo concreto (histórico), empoderando as classes oprimidas para resistência ideológica.

Neste artigo, buscamos melhor compreender que tipo de relação o povo de Deus – a partir da experiência do Êxodo-tribal – estabeleceu com as estruturas sócio-políticas de sua época. Especificamente, questionamos: como o tribalismo israelita se relacionou com as cidades-estado da palestina?

1. Contexto histórico da Palestina no período do Tribalismo

Para darmos início a esta discussão, apontamos algumas características mais marcantes daquele período histórico. As condições sócio-políticas da Palestina antes da chegada de Israel eram determinadas pelo imperialismo egípcio. Canaã estava dividida em mini-estados, que tinham administração centrada em cidades fortificadas [cidades-estado]. Isto é, cada uma dessas cidades era “governada por um rei que, como vassalo do faraó exercia controle sobre as cidades circunvizinhas e aldeias de proporções modestas. A sociedade era de estrutura feudal” (BRIGHT, p. 152) e consistia de uma classe hereditária de patrícios, camponeses meio-livres, numerosos escravos e uma pequenina classe média, provavelmente urbana (Cf. CAZELLES, p. 72).

“A maior parte de cidades-estado estava na planície. O interior montanhoso ainda era espessamente coberto de florestas e muito fracamente povoado” (BRIGHT, idem). E esta é uma das chaves para compreensão da revolução social que veio a acontecer no fim da Idade do Bronze, quando foram desenvolvidas técnicas de retenção de água em grandes altitudes. Isto possibilitou que muitos camponeses e classes empobrecidas migrassem (fugissem) e se estabelecessem nas montanhas da Palestina. O Êxodo de Israel foi condicionado por tal momento histórico.

Entretanto, não se pode afirmar que Israel obteve êxito em sua luta por liberdade somente por dominar novas técnicas, mas sim por possuir uma organização social que foi capaz de criar resistência ao domínio escravista das cidades-estado: o tribalismo. Neste momento, destinamos algumas linhas para melhor conceituá-lo.

2. O tribalismo e resistência cultural

A forma de organização em grupos familiares nômades ou semi-nômades sempre foi uma característica muito presente dos povos palestinos. Esses grupos migravam sempre à procura de novas pastagens para seus rebanhos. Mas, apesar das semelhanças, a tribo possui uma estrutura social um pouco mais complexa que a de um simples agrupamento familiar nômade (como dos beduínos).

Na sociedade tribal, a massa de pessoas no seu meio, “disposta em grupos vivos separados, está ligada juntamente por diversas vigas transversais que formam uma rede de identificações e de atividades no meio do povo, que se estende para além das fronteiras dos grupos vivos individuais” (GOTTWALD, p. 304). O agrupamento de famílias cortava-se transversalmente por outras classes de agrupamentos que aproximam as pessoas em torno de símbolos religiosos, significações e atividades específicas, não mais em função da moradia, mas em função de parentesco, idade, habilidade, iniciação, ou qualquer outra forma, estabelecendo um sentido de afinidade com outros fora do grupo vivo imediato ou da vizinhança. Essas relações transversais eram responsáveis por uma relativa cumplicidade entre as tribos.

Numa análise antropológica do tribalismo, Gottwald afirma que:

Os membros da sociedade israelita estavam organizados não só em grandes grupos de moradias ampliadas, que formavam unidades socioeconômicas de corte transversal ou seus equivalentes. Entre os grupos de corte transversal estavam as associações protetoras de famílias extensivas, o exército dos cidadãos, a congregação ritual, os levitas (sem terras e distribuídos entre as tribos).


Além dos mecanismos de ligação citados acima, destacamos primeiramente o mishpaha, “uma ligadura ou estrutura de vinculação que servia para integrar a sociedade hebraica e que funcionava dentro de um modelo amplamente tribal enquanto contraponto ao atomismo social característico do bando, bem como à centralização e à estratificação própria do estado” (GOTTWALD, p. 327). Em segundo lugar, destacamos as pseudogenealogias que, além de funcionarem como elo transversal entre as famílias da tribo, possuíam um grande poder como ideologia política e cultural de resistência.

Para melhor compreensão das pseudogenealogias, recordamos que a tribo israelita era agrupamentos de famílias, podendo ser entendida a partir da imagem de ramos que saem de um tronco comum. As famílias podem ser aparentadas, realmente ou por ficção. Quando uma família se agregava a outras famílias mais fortes ou uma tribo estabelecia uma aliança com outra, era evocado um ancestral em comum (real ou fictício), um opônimo, o que determinava que todos eram irmãos e deviam fidelidade e respeito mútuos (CAZELLES, p.73).

Tem-se destacado que este tipo de aliança tribal foi de vital importância para a fixação do povo e da teologia israelita na Palestina, na medida que a afirmação de Iahweh – o Deus de Israel – como um Deus libertador aumentava a chance das tribos israelitas estabelecerem alianças com povos igualmente oprimidos, incorporando-os sob um mesmo opônimo. Mas Israel “não somente lhes oferecia uma comunidade e identidade como eles nunca tiveram antes, mas afirmava que Iahweh era o deus que os tinha livrado para que eles pudessem chegar à terra que ele, Iahweh, tinha prometido a seus antepassados” (BRIGTH, p.180). Portanto, “os povos que chegaram a se tornar israelitas opuseram-se àquilo que eles experimentaram como agressão sistemática da sociedade centralizada por meio de ação social-revolucionária concreta, coordenada, simbolicamente unificada de legítima defesa agressiva” (GOTTWALD, p. 334 e 335).

Importante destacar que a organização tribal israelita proporcionou uma justaposição de sociedades em diferentes níveis de organização. Uma sociedade cananéia mais forte e organizada, afixada em cidades fortificadas das planícies da palestina, versus uma sociedade tribal que permeava o território, afixando-se sobretudo nas florestas das regiões montanhosas, meio que de forma clandestina. Apesar de, em muitos momentos, as tribos terem vivido uma espécie de simbiose com as cidades antes de conquistá-las e de tentar assimilá-las, podemos afirmar que “Israel se implantou em Canaã, mas Israel não é Canaã” (CAZELLES, p. 70). As tribos se sentiam sempre mais livres diante dos poderes organizados das cidades.

Concorde com este pensamento, Comblin afirma que “a vida comum de Israel não é a resultante de relações econômicas, de estratificações da sociedade rural e urbana. Supera esses fatores” (COMBLIN, p.39). Isto porque Israel não é somente um povo, “é mais que isso. É comunidade que se refaz a cada dia pela fidelidade consciente e voluntária de seus membros. Não basta apenas nascer israelita. Deve-se ratificar este nascimento por adesão pessoal à aliança, por aceitação da mensagem e da missão, por submissão à lei” (Idem). O que torna evidente a força de resistência que o tribalismo representava. Mesmo que interagisse com as cidades por alguns motivos, o tribalismo de Israel representava um projeto autônomo que contestava o poder centralizador da política em Canaã, reivindicava território e povos para um modo igualitário de vida agrícola e pastoril.

A força das relações tribais está em sua capacidade de conduzirem grupos a uma relativa unidade comunitária de propósito, visando a sua própria libertação. E apesar de autores datarem o fim do tribalismo israelita por volta de 1050 a.C., não podemos falar de um fim categórico de suas influências na história do povo de Israel. Mesmo após o período pós-exílico, traços da cultura e organização tribalista ainda permeavam a teologia e as estruturas sociais de Israel, estimulando uma constante postura profética, na busca de estabelecer a justiça do Reino de Deus diante das injustiças entranhadas nas cidades da palestina, mesmo aquelas dominadas pelo próprio povo de Israel.

No livro de Amós 9.13-15 temos as seguintes palavras: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que (...) mudarei a sorte do meu povo de Israel; reedificarão as cidades assoladas e nelas habitarão, plantarão vinhas e beberão o seu vinho, farão pomares e lhes comerão o fruto. Plantá-los-ei na sua terra, e, dessa terra que lhes dei, já não serão arrancados, diz o Senhor, teu Deus” (Almeida, RA). Uma esperança. É isso que este texto representa. A fé do profeta camponês num Deus libertador o conduz a esperança de que as cidades não mais serão o centro do poder opressor sobre as pessoas do campo, pelo contrário, elas terão acesso a terra e a seus benefícios, as cidades lhes serão lugar de habitação, pois nelas reinará o shalom.

O profeta agiu como se ele houvesse “tido desde as primeiras experiências urbanas a missão de dizer: cuidado, as cidades não são o que prometem” (José COMBLIN., pp.38 e 39). O povo de Israel, a partir de sua consciência de herdeiro do Reino, conquistou autonomia para criticar e combater os modelos escravizadores conclamados pelas cidades de sua época. Portanto, mesmo vivendo sob as influências das cidades, o tribalismo possui autonomia ideológico-religiosa para contestar suas estruturas pecaminosas de dominação e apontar para um modelo de sociedade norteado pela justiça.


Bibliografia

BRIGHT, J. História de Israel. 5a ed. São Paulo: Paulus, 1978. – (Nova coleção bíblica)

CAZELLES, Henri. História política de Israel. Desde as origens até Alexandre Magno. São Paulo: Paulinas, 1986.

GOTTWALD, Norman K. As tribos de Iahweh. Uma sociologia da religião de Israel liberto, 1250-1050 a.C. São Paulo: Paulinas, 1986.

COMBLIN, José. Teologia da cidade. São Paulo: Paulinas, 1991.

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