1/05/2010

Banho de chuva

Primeiro dia de dois mil e dez. Dia especial. Ele demorou a acordar, afinal, chegou tarde na noite anterior, ao retornar da celebração de passagem de ano. Levantou ouvindo a voz de seus familiares que, como de costume, tomavam café e achavam graça dos fatos cotidianos da família e dos mais chegados. Esta cena já estava fotografada em seu coração, trazendo-lhe doces lembranças da época em que seus avós ainda estavam vivos e partilhavam deste instante.

Ele se achegou à mesa e passou a desfrutar do que fora servido no café: a gargalhada gostosa de sua tia Margarida, o lindo sorriso da prima Ester, as brincadeiras de Artur, seu primo e cúmplice de aventuras infanto-juvenis, as tiradas e “sei-que-lás” de sua concunhada Duda. Também foram servidas as indagações teológicas de seu tio Paulo e, para completar o banquete das relações, as manhas e sacadas precoces do primo mais novo, Claudinho.

O dia seguiu, veio o almoço e a cena à mesa se repetiu, com alguns retoques diferentes. A tarde chegou e trouxe consigo um presente: a chuva forte de verão tropical. Ele estava inquieto, pensando na vida e nos desafios que se apresentam para o novo ano. E lá fora a chuva o desafiava. Foi quando entendeu o seu primeiro desafio naquele ano: tomar um banho de chuva.

De imediato, escolheu cuidadosamente a indumentária para ocasião tão solene: um calção de nylon, um tênis de corrida bem leve e um aparelho de som que pudesse ser escondido da chuva, com os fones de ouvido. Resolveu ouvir música durante o ritual ao lembrar-se das palavras de uma grande amiga Maria: - para quem ouve mp3, a vida é um clip.

Enquanto se aprontava, Ester o indagou: - Onde vais nessa hora e com essa chuva? Ele respondeu com um sorriso no canto da boca: - vou tomar banho de chuva. Com uma expressão de reprovação, com lábios retorcidos, Ester diz: - Não vou cuidar de ninguém se ficar doente. Assim seguiram as reações àquela idéia absurda: tomar banho de chuva.

Até mesmo Silvia, a amiga da família lançou a nota: – Como pode tamanho homem formado, já na casa dos trinta anos, fazer uma coisa dessas? Isso é coisa para criança! Ele, pacientemente, lhe perguntou:

– Silvia, a quanto tempo você não toma banho de chuva?

– A última vez eu ainda era criança.

– É... talvez você precise compreender as palavras de Erasmo, em seu Elogio à Loucura: "Por tudo isso, observai, senhores, que quanto mais o homem se afasta de mim [a loucura], tanto menos goza dos bens da vida, avançando de tal maneira nesse sentido que logo chega à fastidiosa e incômoda velhice, tão insuportável para si como para os outros". E continuou: Minha querida, creio que você precisa tomar um banho de chuva, sentir-se criança, louca e livre, sem a ninguém ofender, para compreender o que vou fazer agora.

Silvia, surpresa, reagiu de modo muito interessante, e disse: – Nossa! Quero conhecer melhor este tal Erasmo. Foi quando, convicto de que estava a fazer a coisa certa, a despeito das broncas e argumentos contrários, Marcos tomou rumo do portão de saída de casa, já ansioso pela experiência singular daquele banho de chuva no primeiro dia do ano.

Já do lado de fora, o ritual de libertação do gênio dos adultos começou a se dar logo de cara. Sentiu o vento e as gotas frias respingando ininterruptamente em seu corpo. Viu-se logo obrigado a transpor o zelo exacerbado com a saúde e o medo de uma gripe. Seguiu em frente até alcançar uma via principal daquele bairro popular da periferia de Goiânia. Chegando lá, optou pela direita e aumentou o ritmo da passada. Neste instante, já estava todo encharcado, molhado dos pés calçados à cabeça raspada.

O frio logo passou e a água escorria lavando suas preocupações e temores. Sentiu-se mais a vontade e por alguns instantes, abriu os braços e fechou os olhos, somente para degustar o vento e a água, que conduziram seus pensamentos à adolescência, quando corria pela praia de Itapoá, debaixo de intensa chuva e chutando as ondas esparramadas pela areia. Reabriu os olhos e, inspirado, passou a correr mais no canto da rua, deixando a enxurrada gelada molhar seus pés. Ali reencontrou o garoto dentro de si.

Durante a brincadeira esdrúxula para os adultos, correndo sem camisa e liberto de pré-conceitos, buscando a simplicidade e a inocência de uma criança que chuta a água da enxurrada, Marcos perguntou-se sobre o que é necessário para ser feliz. Seriam os carros luxuosos, as mansões? Ou a plena realização profissional, os elogios e aplausos de reconhecimento? Talvez a realização no amor ou uma vida religiosa devota? Onde está a felicidade?

Naquele momento, num despretensioso banho de chuva, ele se encontrava feliz. Sem livros de auto-ajuda e suas fórmulas milagrosas, desapegado das coisas materiais, alheio ao tempo e ao espaço dos negócios, do mercado, da ambição e de sonhos atrelados às futilidades que as pessoas valorizam. Eram somente um homem, um tênis, um calção de nylon e um aparelho mp3, correndo na chuva no primeiro dia do ano.

A chuva passou, ele voltou pra casa, um pouco cansado, molhado, contente. Então lembrou dos que ficaram com seu gênio adulto reprovador e ranzinza, cativos de suas preocupações e cansaço a ponto de não mais recordarem a singeleza do ser criança, e entregar-se à vida com leveza de espírito. Afinal, como diz o sábio Paulo: “nada trouxemos para este mundo, e daqui nada podemos levar; por isso, devemos estar satisfeitos se tivermos alimento e roupa”. Para Marcos o banho de chuva deixou a convicção de que, talvez, a melhor forma de experimentar esta frágil vida é experimentar seus aspectos materiais sem perder o valor de um simples sorriso; é viver como adulto, sem nunca deixar de ser criança.

Gidalti Guedes da Silva

2 comentários:

  1. Realmente, nessa vida nunca podemos esquecer dos tempos da inocência... Parabéns,Gidalti! Muito bonito o texto.

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  2. Excelente, escreves muito bem! São nesses momentos 'infantis' que construímos a verdadeira felicidade e as doces lembranças.

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