6/26/2010

Que é Salvação? (Rev. João Wesley)

1. E, primeiro, perguntemos: Que é salvação? A salvação de que se fala aí não é aquilo que o mundo freqüentemente entende por essa palavra — a ida para o céu, a eterna felicidade. Não é a ida da alma para o paraíso, chamado por nosso Senhor “o seio de Abraão”, Não é uma bênção que se encontre do outro lado da morte, ou, como usualmente dizemos, no outro mundo. As próprias palavras do texto tiram toda duvida a este respeito: “Vós sois salvos”. Não é alguma coisa remota: é uma coisa presente; uma bênção de que, pela livre misericórdia de Deus, estais de posse agora mesmo. Aquelas palavra podem até ser traduzidas, com igual propriedade, desta maneira: “Vós tendes sido salvos”, de modo que a salvação de que se trata aí pode estender-se a toda a obra de Deus, desde o primeiro toque da graça na alma até sua consumação na glória.

2. Se tomarmos a palavra em sua derradeira extensão, ela incluirá tudo quanto se opera na alma por meio do que com freqüência se chama “consciência natural”, e que mais propriamente vem a ser a “graça preventiva”; todas as atividades do Pai; as aspirações de Deus, as quais, se atendermos a elas, aumentar-se-ão cada vez mais; toda aquela luz com que o Filho de Deus “alumia a todo que vem a este mundo”, ensinando a todo homem a “praticar a justiça, a amar a misericórdia e a andar humildemente com seu Deus”; todas as convicções que seu Espírito, de tempo em tempo, Infunde em todos os filhos dos homens, posto seja verdade que a generalidade dos homens as sufocam tão depressa quanto possível, e em breve tempo esquecem, ou pelo menos negam que jamais as tenham recebido por qualquer meio.

3. Mas estamos presentemente preocupados somente com aquela salvação de que o apóstolo diretamente fala. Esta abrange duas partes gerais —Justificação e santificação. A justificação é outra palavra que designa o perdão. É o perdão de todos o nosso pecados; e, o que se acha necessariamente implícito neste fato, nossa aceitação da parte de Deus. O preço pelo qual essa salvação nos foi adquirida (comumente chamado “causa meritória de nossa justificação”), é o sangue e a justiça de Cristo; ou, para nos expressarmos um pouco mais claramente, tudo que Cristo fez e sofreu por nós, até que “derramou sua alma pelos transgressores”. Os efeitos imediatos da justificação são a paz de Deus, “paz que excede a toda compreensão”, e o “regozijo na experiência da glória e Deus”, “com gozo indizível e cheio de glória”.

4. E ao mesmo tempo que somos justificados, sim, no próprio momento, a santificação começa. Naquele instante somos nascidos de novo, nascidos de cima, nascidos do Espírito: há uma real mudança, assim como uma relativa mudança. Somos Interiormente renovados pelo poder de Deus. Sentimos “o amor de Deus derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos é dado”, produzindo amor a toda a humanidade e mais especialmente aos filhos de Deus; expelindo o amor do mundo, o amor do prazer, de comodidades, de honras, de dinheiro, juntamente com o orgulho, a ira, a obstinação e qualquer outra disposição perversa; em uma palavra, substituindo a mente terrena, sensual e diabólica pela “mente que havia em Cristo Jesus”,

5. Quão natural é que os que experimentam tal mudança imaginem que todo pecado se tenha Ido; que ele se tenha completamente desarraigado de seu coração e nele já não tenha nenhum lugar! Quão facilmente tiram eles esta inferência: “Eu não sinto pecado; portanto, não tenho pecado; ele não se excita, portanto, ele não tem existência!”

6. Mas raramente acontece que decorra multo tempo para serem desenganados, verificando que o pecado estava somente suspenso e não destruí do. As tentações voltam e o pecado revive, mostrando que antes estava apenas aturdido e não morto. Agora os homens sentem em si mesmos dois princípios inteiramente contrários um ao outro: “a carne cobiçando contra o Espírito”, a natureza opondo-se à graça de Deus. São podem negar que, embora sintam ainda forças para crer em Cristo e para amar a Deus; embora seu “Espírito” ainda “testifique com seus espíritos, que eles são filhos de Deus”, contudo ainda sentem em si mesmos orgulho ou obstinação, as vezes ira ou incredulidade. Acham um ou mais dentre eles agitando-se em seu coração, embora não vencendo: sim, talvez “ferindo-os para que possam cair”; mas oSenhor é seu auxílio.

7. Quão exatamente descreveu Macário, há catorze séculos, a presente experiência dos filhos de Deus! “O incapaz — ou inexperiente—quando se dá à operação da graça, no presente imagina que não tem mais pecado, enquanto que os discretos não podem negar que mesmo osque temos a graça de Deus, podemos ser ainda molestados. Porque nós temos tido com freqüência exemplos de alguns entre os irmãos, que têm experimentando semelhante graça, afirmando que não têm pecado em si mesmos; e ainda, depois de tudo, quando se. julgavam inteiramente livres do pecado, a corrupção que jazia no seu interior se agitou de novo e bem depressa se tornaram abrasados,”

8. A partir da época de nosso novo nascimento, tem lugar à obra de santificação gradual. Somos habilitados “pelo Espírito Santo” a “mortificar as obras da carne”, de nossa natureza má; e, sendo cada vez mais inteiramente mortos ao pecado, cada vez mais vivificados somos para Deus. Avançamos de graça em graça, se tivermos cuidado em “abster-nos de toda aparência do mal” e sermos “zelosos de boas obras”, segundo tivermos oportunidade, fazendo obem a todos os homens; se andarmos sem tropeço em todas as suas ordenanças, prestando culto a Deus em espírito e verdade; se tomarmos nossa cruz e negarmos a nós mesmos todo prazer que nos não conduza a ele.

9. É assim que esperamos pela inteira santificação; por uma completa salvação de todos os nossos pecados: do orgulho, da obstinação, da ira, da incredulidade; ou, como se expressa o apóstolo, “chegar à perfeição”, Mas, que é perfeição? A palavra tem vários sentidos: aí ela significa perfeito amor. É o amor que exclui o pecado; amor que enche ocoração, empolgando todas as capacidades da alma. É o amor que “se regozija sobremodo, ora sem cessar,em todas as coisas dando graças”. Mas, qual é a fépela qual somos salvos? Este é o segundo ponto a ser considerado.

Fonte: Sermão 43.

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