10/31/2010

A ética fundada no pobre e no excluído



A situação de empobrecimento e de exclusão em que vivem grandes porções da humanidade e as dificuldades históricas de suscitar com-paixão e solidariedade têm desafiado a reflexão de muitos pensadores situados na periferia dos grandes centros metropolitanos e dos sistemas imperantes. Objetivamente, esta anti-realidade provoda indignação e até iracúndia sagrada. Diante das multidões famélicas, dos olhos transtornados pelos desespero e dos corpos retorcidos pela fome, a reação humana mínima é: "Isto não pode ser. Isto tem de ser mudado". Deste sentimento visceral, nasce a vontade política por um processo de libertação, carregado de densidade ética.

(...)
Enrique Dussel (nascido em 1934), teólogo, filósofo e históriador argentino, que vive atualmente no México opera, antes de mais nada, uma rigorosa desconstrução dos discursos éticos vigentes. Em sua grande maioria, observa ele, os formuladores dessas éticas não têm consciência do lugar social a partir donde pensam e atuam: dentro dos sistemas dominantes e a partir de quem ocupa o centro do poder. Praticamente não tomam em conta o fato de que existem uma periferia e uma exclusão mundial, fruto desses sistemas fechados sobre si mesmos, incapazes de incluir a todos e, por isso, produtores permanentes de vítimas. Como podem universalizar suas propostas, deixam-se de fora os pobres e os excluídos, que constituem as grandes maiorias da humanidade? Tais pensadores não fazem um juízo ético prévio do sistema histórico-social em que vivem imersos e do tipo de racionalidade que utilizam. Partem como se suas realidades fossem evidentes e inquestionáveis. Sua crítica não é suficientemente radical.


Nesse sentido, os marginalizados e mais ainda os excluídos são portadores de um privilégio epistemológico. A partir deles, pode-se fazer um juízo ético-crítico sobre todos os sistemas de poder dominantes. O excluído grita. Seu grito denuncia que o sistema social e ético está falho, é injusto e deve ser transformado.(...)


(Continua ...)

Leonardo Boff.

Um comentário:

  1. Muito boa a análise do grande Boff. Mais, faltou os seus pitacos meu amigo... Grande abraço, estou chegando dia 7. valew

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