10/26/2010

Modernidade, cultura e formação do sujeito

REFERÊNCIA:
SILVA, Gidalti Guedes; SANTOS, Maria do Carmo. Modernidade, cultura e formação do sujeito. In: Nair Ferreira Gurgel do Amaral; Maria do Socorro Pessoa; Tania Suely Azevedo Brasileiro. (Org.). Educação, cultura e linguagem. 1 ed. Curitiba / Porto Velho: CRV / Edufro, 2010, p. 37-49.(ISBN: 978-85-8042-097-5)

Gidalti Guedes da Silva [1]

Maria do Carmo dos Santos [2]
  
Resumo: Este artigo apresenta uma análise crítica sobre a cultura moderna e suas implicações na formação do sujeito, considerando o reflexo de alguns fenômenos, como: a industrialização e a coisificação humana, sequelas relacionais do processo de urbanização, especialização e fragmentação do conhecimento, e a formatação estética da Indústria Cultural. Tem-se por premissa que os meios de produção estabelecem elementos que condicionam de modo direto ou indireto a cultura de um povo. A forma das pessoas se organizarem na busca de sua subsistência, no seu trabalho, na escola e no entretenimento, dia a dia, além de disciplinar seus corpos, vai deixando marcas profundas no seu espírito. Dentre as conclusões apresentadas, dá-se ênfase ao processo cultural desumanizador, que interfere na construção da subjetividade e implica na formação de sujeitos ideologicamente subjugados, entorpecidos, individualistas, indiferentes, e condicionados a reproduzirem esteticamente as lógicas da indústria e do entretenimento. Eis aqui um dos maiores desafios educacionais do presente século, o de não somente primar pela qualificação técnica do trabalhador para o mercado de trabalho, mas de formar sujeitos com autonomia crítica objetiva e estética, de modo que sejam capazes de estranhar o mundo em que vivem.

PalavraS-chave: Modernidade; Cultura; Formação do Sujeito


Introdução.


Este artigo apresenta uma reflexão sobre a cultura moderna e suas implicações na formação do sujeito. Falar de modernidade implica múltiplos processos sócio-culturais que ocorreram no decurso dos últimos séculos, tais como as grandes descobertas científicas, o desenvolvimento de novas técnicas de produção, o surgimento da indústria a consolidação do capitalismo financeiro, a urbanização, a globalização econômica, o advento do rádio, da televisão e a revolução no campo da informática [3].
Tem-se por premissa que os meios de produção estabelecem elementos que condicionam de modo direto ou indireto a cultura de um povo. A forma das pessoas se organizarem na busca de sua subsistência, no seu trabalho, dia a dia, além de disciplinar seus próprios corpos, vai deixando marcas profundas no seu espírito. Isto é, compreende-se que a sociedade contemporânea estabelece condicionantes existenciais, que afetam até mesmo dimensão estética do ser humano. Os valores, o certo e o errado, o belo e o feio, o novo e o ultrapassado, o desejável, a tessitura das relações interpessoais e outros elementos que perpassam as subjetividades estão sob impacto da essência material da sociedade capitalista e de seus mecanismos ideológicos.
Mesmo em diálogo com outras abordagens, o principal aporte teórico para o desenvolvimento deste artigo foi a Antropologia, pois, como afirma Rubem G. Oliven, é no preocupar-se em compreender os reflexos das grandes transformações no cotidiano

[...] e como elas são vivenciadas e reelaboradas por diferentes camadas sociais que a Antropologia vem desempenhando um papel tão relevante na compreensão da dinâmica de sociedades complexas (1992, p.11 e 12).

A Industrialização, a Urbanização e a Escola.

Corpos industrializados: o fenômeno da coisificação humana.


O tema da sensibilidade e da formação estética do ser humano está intrinsecamente relacionado à identidade culturalmente assumida. Esta identidade passa pela forma como o ser humano lida com seu próprio corpo. Isto é, a experiência do corpo influencia na construção da subjetividade, e na maneira como se dão as relações interpessoais no cotidiano. Melhor se compreende este fenômeno ao analisar algumas das transformações que o processo de industrialização capitalista causou na maneira do trabalhador lidar com seu corpo (GONÇALVES, 1994).
No capitalismo, o corpo é vendido como força de trabalho, alienando a pessoa do corpo, que passa a percebê-lo como objeto direto de seus próprios interesses de consumo e riqueza. Apesar da comercialização dos corpos (pessoas) já estar presente desde o sistema escravista, foi no capitalismo moderno que o ser humano passou a ver seu corpo como produto, coisa.
Este fenômeno se agrava com a experiência do corpo mecanizado na linha de produção das fábricas, onde nada se exige além dos movimentos repetidos, dia após dia, ano após ano, numa rotina que valoriza a técnica e a repetição mecânica, em detrimento à criatividade e à sensibilidade. É o fenômeno da coisificação humana, que faz com que, acentuadamente, as relações interpessoais não relevem o outro como ser humano. Neste contexto vivencial, o eu-robotizado-insensível trata o outro-coisa com indiferença.

Sequelas do processo de urbanização.


Não se pode pensar a formação do sujeito moderno desconsiderando a vida nos centros urbanos, caracterizada por dinâmicas próprias. A Revolução Industrial trouxe a reboque um intenso processo de urbanização, que ocorreu em alguns países como Inglaterra, França e EUA nos séculos XVIII e XIX. No Brasil, assim como em outros países da periferia do sistema capitalista, a urbanização ocorreu de modo intenso somente após a segunda guerra mundial, com o estabelecimento de grandes pólos industriais.
O espaço urbano, mercantilizado, é a evidência geográfica das diferenciações sociais. No mundo capitalista globalizado, o ambiente urbano se tornou um lugar de fragmentação e de luta pelo espaço. Os altos índices de criminalidade são manifestação da cidade segregada. Ermínia Maricato (2001) estabelece uma clara relação entre violência, espaço metropolitano ilegal e exclusão social. Este ambiente agressivo torna as calçadas, as ruas e praças lugares suspeitos, perigosos, e em determinados horários, inóspitos. Neste contexto, o outro é tido como ameaça e não como cúmplice na luta pela vida e dignidade. A violência presente nos espaços públicos estimula a fuga para os espaços privados, particulares, individualizados.
Outro aspecto a se considerar é que a aglomeração de muitas pessoas nos centros urbanos modificou o comportamento e as relações entre elas. Segundo George Simmel (1987), a vida na metrópole, marcada por encontros com tantas pessoas, signos e informações, impõe um ritmo intenso de estímulos nervosos que pode conduzir a um estado mental crítico. Na reação a este quadro, o sujeito passa a se relacionar com as pessoas a partir de dois níveis: nível da funcionalidade e nível da afetividade.
O primeiro nível é marcado pela impessoalidade, e está presente na capacitação técnica para o trabalho, nas relações sociais de âmbito profissional (serviços). Já o segundo nível é marcado por laços interpessoais mais profundos, próprios da família, dos grupos de afinidade, das comunidades religiosas. A questão é que na metrópole o nível da funcionalidade é predominante nas relações, o que torna a maior parte dos encontros do cotidiano marcados por uma espécie de indiferença afetiva, o que garante um menor desgaste emocional.
O processo de urbanização estabeleceu novas formas de interação social marcadas pelo individualismo, pela impessoalidade das relações, pela privatização da afetividade. O sujeito tende a relacionar-se com certa indiferença para com aquelas pessoas que não integram seu pequeno grupo de afinidade. Neste sentido, a miséria, a dor, as injustiças e o sofrimento dos outros, das pessoas que estão para além do ciclo afetivo, não incomoda mais, não provoca mais espanto nem estranhamento.

            Escola: especialização e fragmentação do conhecimento.


Embora menos perceptível que o caso da urbanização, outro condicionante cultural próprio do capitalismo industrial é a especialização do conhecimento, onde se evidencia a relação entre trabalho, técnica e ciência. Numa postura crítica diante da organização curricular, Hugo Asmann e Jung Mo Sung (2001) afirmam que o ambiente escolar prepara os alunos a perceberem pedaços diferentes da realidade. As disciplinas funcionam quase sempre como segmentos autônomos, possuindo pouco ou quase nenhuma relação umas com as outras.
Esta forma fragmentária e mecanicista de ver a realidade expandiu sua influência para além das salas de aula, alcançando a própria cultura na qual se vive. Um currículo firmado na lógica da especialização do conhecimento capacita o sujeito a ver o mundo de modo fragmentado. Asmann e Sung ressaltam que
[...] a cultura na qual nós vivemos nos abre e fecha as “janelas” pelas quais vemos o mundo. Ela nos leva a vermos certos aspectos da realidade e a não vermos outros; mais ainda, leva-nos a não perceber que não vemos esses outros aspectos. Como não temos consciência de que não vemos com determinado aspecto ou parte da realidade, cremos que o que vemos é toda a realidade ou toda a verdade (2001 p.79).

O que está em evidência é o lugar da educação no processo social mais amplo, pois além de oferecer conteúdos e saberes necessários para a vida na sociedade capitalista, a escola possui lugar de destaque na formatação da subjetividade humana. Edgar Morin afirma:
Devemos, pois, pensar o problema do ensino, considerando, por um lado, os efeitos cada vez mais graves da compartimentação dos saberes e da incapacidade de articulá-los, uns aos outros; por outro lado, considerando que a aptidão para contextualizar e integrar é uma qualidade fundamental da mente humana, que precisa ser desenvolvida e não atrofiada (2001, p.16).

Morin reconhece que o modelo de educação predominante na sociedade moderna estabelece condicionantes para o pensamento e para o comportamento, sobretudo quando há uma separação entre cultura das humanidades e cultura científica no processo de formação. Enquanto a cultura humanística é genérica, “pela via da filosofia, [...] alimenta a inteligência geral, enfrenta as grandes interrogações humanas, estimula a reflexão sobre o saber e favorece a integração pessoal dos conhecimentos” (Idem, 2001, p.17), a cultura científica, “[...] separa as áreas do conhecimento; acarreta admiráveis descobertas, teorias geniais, mas não uma reflexão sobre o destino humano e sobre o futuro da própria ciência” (Idem).
A especialização e fragmentação do conhecimento no currículo contribuem para a formação de pessoas tecnicamente capazes, na expectativa de que cumpram com eficiência trabalho específicos, entretanto, compromete a capacidade de percepção do todo. Esta forma de pensar e interpretar a realidade tem reflexo nas relações sociais, pois impede que o sujeito compreenda a realidade como um todo, como um conjunto de peças interdependentes e nunca completas em si mesmas. “Quando as pessoas têm uma visão sistêmica da realidade social conseguem perceber que elas são o que são porque fazem parte de um todo social e que elas não existiriam sem a existência de outras pessoas e do sistema social” (Asmann; Sung, 2001, p.81).
O sujeito passa a compreender-se desconhecendo os vínculos sociais de interdependência, perdendo a capacidade crítica de estruturas e sistemas, e não percebendo a importância de suas ações individuais no conjunto social, na comunidade, junto aos vizinhos do bairro, colegas de trabalho. Isso compromete e limita as iniciativas pessoais que corroborariam na solução de problemas relacionados não somente com o ciclo social mais próximo, mas com outros cidadãos.
Mesmo para as pessoas que conseguem ter algum discernimento racional crítico de problemas sistêmicos, impera a sensação de impotência diante do todo, sobretudo quando a maioria das pessoas não partilha desta consciência e inquietação. Esta visão fragmentada confirma ainda mais a tendência individualista atual e impede que uma pessoa enxergue a importância do bem estar das outras pessoas para a sua própria sobrevivência. É neste contexto cultural que as relações tribais, os organismos de classe e outras formas de resistência coletiva sofrem de uma profunda desarticulação, pois parte dos próprios sujeitos que compõem estes grupos.
Neste ponto da reflexão, fica evidente como a industrialização, a urbanização e a escola compõem articuladamente um mesmo projeto de sociedade. Os corpos coisificados e indiferentes, as relações desafeiçoadas e impessoais, além da falta de percepção do todo, são elementos que constituem o sujeito na modernidade. Mas, além destas condicionantes para a existência humana, o século XX foi palco de uma série de inovações tecnológicas no campo da informação, que tem ocupado lugar de destaque no processo de formação das subjetividades, chegando a influir direta e indiretamente na dimensão estética do ser humano.

A Experiência Estética na Modernidade.

Estética e modernidade.


A filosofia estética vai muito além dos conceitos estereotipados e dos padrões de beleza impostos pela indústria do consumo. A dimensão estética do ser humano relaciona-se às suas inquietações mais profundas. Significa pensar as tramas subjetivas do ser humano na busca da felicidade, e na necessidade de superação do sofrimento vivido e da morte. A estética refere-se aos sentimentos e às intuições humanas colocadas diante de questões cotidianas e da própria busca de um sentido da vida.
Nas mais variadas manifestações culturais, a arte tem sido a forma como se manifestam estes sentimentos e intuições, estando ou não vinculada às manifestações de religiosidades instituídas. Ao tratar do tema da estética na filosofia grega, Batista Mondin destaca que “Platão define a arte como um divino entusiasmo e diz que ela é fruto do amor que impele a alma para a imortalidade; para alcançá-la, a alma procura gerar e procriar o belo. Neste sentido a arte tem o valor de antecipação da vida feliz” (1981, p.78. Grifo do autor).
Para expressar tais inquietações estéticas, o sujeito recorre à arte, na produção ou contemplação da poesia, das cores, das formas, da música e outras maneiras de representação daquilo que não pode ser dito em categorias racionais tão precisas, tão pouco pode ser encontrado na realidade que se vive. Na arte, o belo revela-se como contraponto ao vivido, na busca do perfeito como negação do imperfeito presente e perceptível. É justamente aí que reside a sensibilidade estética, na capacidade humana de estranhamento da realidade.
Presente no cotidiano das pessoas e na própria linguagem, a racionalidade moderna – que tende a tudo enquadrar, sistematizar, prever, dissecar e compreender – não dá conta de dizer do sentimento, muito menos do belo enquanto estranhamento. A existência do ser humano não se processa somente pelo fato de pensar, de comer ou trabalhar; mas também pelo fato de sentir, de desejar, de admirar, de intuir. Aqui se revela uma das insatisfações do sujeito na modernidade, pois a dimensão estética do ser humano não pode ser reduzida a um estilo de vida predominantemente racionalista, técnico, industrial, mensurável, quantificado e mercantilizado.
No esquema previsto para a sociedade moderna, as instituições que dariam conta da dimensão estética dos sujeitos seriam principalmente a família e a religião. Porém, tais instituições foram enfraquecidas pelos processos culturais vinculados ao consumismo, na busca do novo em detrimento às tradições familiares e religiosas, e nas dinâmicas próprias do relativismo cultural do mundo globalizado, que promove o encontro dos diversos e culturalmente diferentes.
Instala-se uma crise no esquema, abrindo espaço para que as inquietações estéticas manifestem por meio da arte o descontentamento com a realidade vivenciada, fenômeno que se constitui como potencial desencadeador de comportamentos que buscam a subversão da ordem vigente. A seguir, verifica-se como a Indústria Cultural se apresenta como uma aparente solução para essa crise estética no esquema da modernidade.

            Indústria cultural e formatação estética.


No primeiro tópico deste artigo, viu-se como a vida do trabalho coisifica e mecaniza os corpos (sujeitos); o estilo de vida nas cidades modificou a maneira como se dão as relações interpessoais, com vínculos de afinidade-afetividade marcados pelo individualismo e pelo privado; também a formação científica-escolar-técnica mecanicista e especializada, impossibilita a apreensão da realidade como um todo e a percepção dos vínculos de interdependência. Todos estes fenômenos, cada um a seu modo, apresentam-se como negação direta ou indireta do sensível e da dimensão estética mais profunda. Algumas das sequelas sociais desta realidade histórica são a individuação dos sujeitos e a fragmentação social.
Note-se que estes condicionamentos da modernidade estão em todos os momentos da vida: no trabalho, na escola, no simples cotidiano das relações na cidade, fruto da necessidade de dar um caráter orgânico harmônico, negando-se as ambiguidades e contradições que irrefutavelmente estão presentes na sociedade capitalista. Porém, a dimensão estética do ser humano apresentava-se como uma possível alternativa para a percepção de tais contradições, mesmo para aqueles menos conhecedores da crítica sociológica.
No século XX, contudo, com o advento dos meios de comunicação de massa, as bases materiais da sociedade capitalista, isto é a indústria e o mercado, expandiram suas lógicas passando a estabelecer condicionantes para a própria subjetividade, num processo de formatação estética das massas, contradizendo a própria premissa liberal: a liberdade. A este fenômeno tem-se dado o nome de Indústria Cultural.
Theodor Adorno (1903-1969), renomado filósofo alemão, acompanhou as transformações sociais decorrentes da criação da cultura de massa, por meio do rádio, do cinema e da televisão. Juntamente com outros integrantes da chamada Escola de Frankfurt, ele tece importantes considerações sobre o tema da Indústria Cultural. Para Adorno,

[...] Toda cultura de massas em sistema de economia concentrada é idêntica, e o seu esqueleto, a armadura conceptual daquela, começa a delinear-se. Os dirigentes não estão mais tão interessados em escondê-la; a sua autoridade se reforça quanto mais brutalmente é reconhecida. O cinema e o rádio não têm mais necessidade de serem empacotados com arte. A verdade de que nada são além de negócios lhes serve de ideologia. Esta deverá legitimar o lixo que reproduzem de propósito. O cinema e o rádio se autodefinem como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores-gerais tiram qualquer dúvida sobre a necessidade social de seus produtos (2009, p.8).

O autor prossegue,

[...] o ambiente em que a técnica adquire tanto poder sobre a sociedade encarna o próprio poder dos economicamente mais fortes sobre a mesma sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação, é o caráter repressivo da sociedade que se auto-aliena. [...] Mas isso não deve ser atribuído a uma lei de desenvolvimento da técnica enquanto tal, mas à sua função na economia contemporânea (Idem, p.9).

Não há mais a necessidade nem a preocupação de travestir o discurso da modernidade de uma pretensa neutralidade. O cinema e o rádio são meios de comunicação colocados a serviço da legitimação ideológica da sociedade capitalista. Veja que o avanço científico e das tecnologias não é ingenuamente culpabilizado, como se as mazelas sociais viessem em decorrência do acúmulo do conhecimento. A crítica aqui está em que as lógicas de produção, consumo, acúmulo de riquezas e poder, próprias da essência material do sistema capitalista, agora encontram um paralelo exato numa cultura intencionalmente fabricada para conter toda e qualquer possibilidade de modificação do esquema.
Na Indústria Cultural, o capital encontra o seu triunfo, pois consegue estabelecer condicionantes estéticos ao sujeito. Palavra, música e imagem encontram-se perfeitamente, imprimindo no sujeito por meio de elementos sensíveis as mesmas lógicas da reprodução, presente no pátio da indústria. Após o dia-a-dia no trabalho e/ou na escola, após a experiência cotidiana na realidade fabricada e transformada pela indústria,
O trabalhador, durante seu tempo livre, deve se orientar pela unidade da produção. A tarefa que o esquematismo kantiano ainda atribuía aos sujeitos, a de, antecipadamente, referir a multiplicidade sensível aos conceitos fundamentais, é tomado do sujeito pela indústria (Ibidem, p.13).

A Indústria Cultural, por meio da via estética, procura estabelecer seu controle, suprimindo a possibilidade de sentimentos, impressões e intuições que representem a negação da estrutura do mundo fabricado. Para tanto, os meios de comunicação entretém as massas com uma espécie de simulacro de arte, arte leve, na medida em que não coloca o sujeito diante de um contraponto ao que se vive, mas reafirma as lógicas da modernidade capitalista. A indústria cultural fornece às massas seu próprio belo, o consumo e prazer, como uma suposta experiência de negação da realidade presente.
Ocorre uma espécie de atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumir cultural, por meio da reprodução e repetição, paralisando a capacidade de se pensar em outra realidade que não a que se vive. Não se trata simplesmente da reprodução de estereótipos e padrões de beleza enquanto costumes específicos dos povos. A Indústria Cultural não sufoca em absoluto a diversidade cultural, desde que cada sujeito e grupo social experimente de suas especificidades culturais em diálogo com as lógicas do consumo e do entretenimento.
Segundo Adorno, “diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada pelos que querem se subtrair aos processos de trabalho mecanizado, para que estejam de novo em condições de enfrentá-lo” (Op.Cit., p.30 e 31). Ele continua,
Divertir-se significa que não devemos pensar, que devemos esquecer a dor, mesmo onde ela se mostra. Na base do divertimento planta-se a impotência. É, de fato, fuga, mas não, como pretende, a fuga da realidade perversa, mas sim do último grão de resistência que a realidade ainda pode haver deixado (Op.Cit., p.41).

O processo de reprodução no campo estético dos condicionamentos materiais se consolida na cultura do entretenimento, que apresenta um escape, um prazer momentâneo e efêmero. O entretenimento tornou-se crucial para que o sujeito se sinta bem, assumindo um caráter viciante, como que pílulas que entorpecem a imaginação e a capacidade intuitiva e criativa de negação da realidade desumana e vazia de um sentido que esteja para além das coisas materiais.

Conclusão.


A economia mercantilista e os pequenos pulsos de industrialização do início do século XX já colocavam o Brasil em diálogo com alguns aspectos do mundo capitalista. Contudo, foi somente na segunda metade do século XX que o cenário brasileiro foi alterado significativamente. Na década de 1950, os economistas tinham por certo “que o desenvolvimento econômico e sua mola principal, a industrialização, eram condição necessária para resolver os grandes problemas da sociedade brasileira: a pobreza, a concentração de renda, as desigualdades regionais” (FURTADO, 2000, p.20).
Em meio século o Brasil foi submetido a um processo intenso de transformações, desencadeadas pela industrialização e urbanização (SANTOS, 1982). Um novo projeto de nação fora concebido de acordo com os ditames econômicos e valores sócio-culturais do capitalismo global. Entretanto, a despeito de um acelerado crescimento econômico, ainda hoje o Brasil não modificou significativamente seu quadro de grande desigualdade social (MARICATO, 2001).
Atualmente, o Brasil se encontra sob a égide da modernidade capitalista, a ponto de já poderem ser observados na cultura brasileira os reflexos dos condicionantes materiais e estéticos que foram discutidos neste artigo. Dentre as conclusões apresentadas, dá-se ênfase ao processo cultural desumanizador, que interfere na construção da subjetividade e implica na formação de sujeitos individualistas, indiferentes e condicionados a reproduzirem esteticamente as lógicas da indústria e do entretenimento.
Entorpecida e fragmentada, a sociedade contemporânea se apresenta ideologicamente subjugada, formada por sujeitos omissos diante de responsabilidades para com a coletividade social, sem qualquer perspectiva pessoal de mudança. Ao longo dos tempos, um dos espaços privilegiados para formação afetiva e estética tem sido a família, uma instituição atualmente enfraquecida por diversos fatores, de modo que esta responsabilidade tem sido transferida à escola.
Eis aqui um dos maiores desafios educacionais do presente século, o de não somente primar pela qualificação técnica do trabalhador para o mercado de trabalho, mas de formar sujeitos com autonomia objetiva (teórica) e estética (sensível), de modo que sejam capazes de estranhar o mundo em que vivem – especialmente quando este mundo é balizado em uma racionalidade que contradiz elementos constituintes do fenômeno humano, como a capacidade de suspeitar e intuir criticamente, e o potencial de buscar a transcendência estética e a superação de suas próprias ambigüidades.

Referências.

ADORNO, Theodor. Indústria cultural e sociedade. 5 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2009.119p.
ASSMANN, Hugo; SUNG, Jung Mo. Competência e sensibilidade solidária.Educar para a esperança. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2001. 331p.
FURTADO, Celso. O capitalismo global. 4a ed., São Paulo: Paz e Terra, 2000.
GONÇALVES, Maria Augusta Salim. Sentir, pensar, agir: corporeidade e educação. Campinas: Papirus, 1994.
MARICATO, Ermínia. Brasil, cidades. Alternativas para a crise urbana. Petrópolis: Vozes, 2001.
MONDIN, Battista. Curso de filosofia: os filósofos do ocidente. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 1981. (Coleção Filosofia – v.1). 227p.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. Repensar a reforma, reformar o pensamento. 5 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. 128p.
OLIVEN, Ruben George. A antropologia de grupos urbanos. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1992. 53p.
SANTOS, Milton. A urbanização desigual. A especificidade do fenômeno urbano em países subdesenvolvidos. 2a ed. Petrópolis: Vozes, 1982.
SIMMEL, Georg. “A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio G (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.


[1] Teólogo (2003), especializou-se em teologia e história (2007) pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). De 2004 a 2010, atuou como docente na Faculdade Metodista de Teologia e Ciências Humanas da Amazônia (Porto Velho-RO). Atualmente, é aluno do Programa de Mestrado da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), bolsista CAPES, com o projeto de pesquisa Estética da Sensibilidade como Princípio Educacional. E-mail: prof.gidalti@gmail.com
[2] Professora Doutora em Educação da Universidade Federal de Rondônia. Orientadora. E-maill:professoramc@gmail.com
[3] Longe de uma leitura histórica positivista, compreende-se a modernidade não como uma conseqüência natural dos processos evolutivos das sociedades humanas, mas como um projeto de sociedade, concebido a partir de uma intencionalidade.

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