11/20/2010

... devaneios sobre a cultura política brasileira


A constituição cultural do povo brasileiro se deu em processos históricos de submissão e opressão. Processos como o escravismo das populações afro no período colonial e do Brasil Império; a opressão com baixos salários aos imigrantes europeus na República Velha nos latifúndios de café e nas fábricas têxteis no sudeste; o populismo paternalista de Getúlio Vargas; a rápida industrialização e conseqüente urbanização caótica promovida a partir de JK; a ditadura militar cerceadora da autonomia de pensamento e decisão da população (direito do qual o povo nunca se apercebeu).

Durante estes processos históricos, duas coisas ocorreram. A primeira foi que o povo brasileiro nunca teve consciência de sua condição social, enquanto classe. Estar juntos em um mesmo lugar, na mesma senzala, na mesma lavoura de Cana de Açúcar ou de Café, estar junto no mesmo garimpo de ouro não garante que os trabalhadores terão esta consciência de classe. Milhares de famílias oriundas de lugares diferentes, experimentando de requintes de opressão social e econômica, não pensam coletivamente ou organizadamente. Pelo contrário, pensam em sobreviver custe o que custar, ainda que isto signifique viver de favores, aliando-se ao mais forte.

Este traço cultural constitui-se como uma barreira para a mobilização das massas trabalhadoras brasileiras enquanto pares. Sem esta consciência de classe, não há articulação do grupo em prol de um bem comum. Os vínculos não são motivados pelas condições do grupo, mas pela necessidade de sentirem-se protegidos, sob a guarda ou tutela do seu padrinho. Trata-se de uma cultura do apadrinhamento que está acima da lei. Os trabalhadores não se vêem como iguais pertencentes à mesma classe, mas como diferentes, enquanto uns são apadrinhados e desfrutam de favores dos mais “poderosos”, e outros não.

O “jeitinho brasileiro” consiste basicamente desta maneira de se relacionar com a sociedade não a partir das leis do Estado, que consideram todos os indivíduos iguais, mas a partir do apadrinhamento, com vistas primeiramente a sobreviver e tirar vantagem.  Por sua vez, o padrinho, valendo-se dos instrumentos públicos e cumprindo simplesmente com suas obrigações enquanto gestor público, beneficia seus compadres ou determinada parcela da população (clientela), é visto não com os olhos do cidadão consciente de seus direitos, mas como um benfeitor.

Não é raro perceber esta cultura do apadrinhamento no cotidiano das cidades brasileiras, quando as políticas públicas implementadas pelos governantes são reconhecidas como uma dádiva, como um favorecimento nos moldes do sistema coronelista. Os moradores de um bairro pobre e periférico, quando tem suas ruas asfaltadas, demonstram um sentimento de gratidão ao gestor público, que mais representa uma relação de compadrio que propriamente uma consciência política madura. Este quadro cultural é reforçado e muito bem utilizado pelas estratégias de marketing político-eleitoral, na busca de evidenciar os gestores públicos como benfeitores dos pobres.

A cultura política da população brasileira é de certo modo ingênua, e própria de pessoas que não tiveram acesso a uma formação política, pelo contrário, são submetidos a um sistema educacional precarizado, além de estarem submersos na indústria do entretenimento, que lhes alivia a dor e sofrimento, ao passo que enfraquece sua intuição de reação às injustiças sociais e econômicas. Impedidos de ver os mecanismos de opressão a que estão submetidos, alienados, marcados pelo individualismo, fragmentados e sem consciência de classe, a população brasileira empobrecida deixa de fazer valer seus direitos e sua força política.

Existem muitos que se beneficiam diretamente deste cenário cultural, perpetuando-se no poder. Outros, mesmo tendo maior consciência política, simplesmente se acomodam e buscam sua felicidade individual, como se nada estivesse ocorrendo para além do seu umbigo. Vivem alheios à culpa, esquecendo que toda suposta neutralidade se converte em cumplicidade. Aquele que alega não envolver-se com as questões políticas, na verdade, já fez a opção política de aceitar o mundo como está, de modo egoísta escolheram se preocupar somente com seu próprio bem estar, fechando os olhos (e o coração) para a dor e o sofrimento de tantos outros cidadãos brasileiros.

Existem aqueles, entretanto, que não conseguem se conformar, não assumem a forma deste mundo, continuam sua luta, seja nos pequenos ciclos de atuação, nas lutas por grupos excluídos, nos sindicatos, nos partidos políticos, atuando nas salas de aula, nas boas conspirações que favorecem a desarticulação dos poderosos. Barulhenta ou silenciosa, esta luta continua, ainda que a opressão e as injustiças estejam imbricadas nas estruturas da sociedade como um todo, ainda que as pequenas ações e as lutas cotidianas pareçam nada mudar, ainda que os frutos das lutas e contestações semeadas no tempo presente sejam colhidos somente pelas próximas gerações. Acredito que seja melhor viver assim, na busca deste “outro mundo possível” – esta é a minha escolha.

Um comentário:

  1. Profético, ideológico, irreal e utópico são sinônimos que outrora usaria para conceituar seu discurso, porem vejo em suas palavras anseio de mudança na atual cultura política brasileira.
    Enfim mestre, sou obrigado a ter o mesmo desejo de indignação que o levou a escrever este, mas também sou obrigado a afirmar que somos resultado desta cultura política. Ações geram reações e se formos analisar nossas atuais posturas, atitudes e escolhas em meio a teste universo veremos que somos meros participantes e como distes barulhentos ou silenciosos.

    ResponderExcluir

Pesquisar este blog