12/25/2010

O menino Jesus não nasceu no Shopping



Já era tarde, cortava um vento frio e seco, o caminho já se via somente pelo luar e já estavam cansados da dura viagem. A ansiedade da chegada apressou os passos quando, de longe, avistaram as luzes da pequena vila, lugar em nada especial, localizada na periferia do mundo, sem luxo algum, sem as possibilidades das cidades maiores, lugar de gente simples, camponeses ou vaqueiros em sua maioria.

Chegando ali, procuraram lugar para passar a noite, porém se aglomeravam nas casas e hospedarias pessoas oriundas de muitos lugares. O coração do viajante ficava cada vez mais aflito, pois não tinha como dar abrigo à sua esposa. Pensava em uma solução enquanto ouvia os gemidos e a respiração ofegante da mulher, grávida, prestes a dar a luz.

Avistou uma casa mais adiante, e persistiu na esperança de ser acolhido, mas também ali não lhe deram lugar, mesmo quando alertava quanto ao sofrimento de sua esposa. A insistência do homem surtiu efeito, quando o proprietário autorizou que ficassem ali no curral, junto aos animais. Ele correu, procurou um lugar menos sujo, menos fedido, estendeu sua manta sobre o feno e acomodou a mulher. E foi ali, na periferia do mundo, numa insignificante cidadela, junto aos animais em um curral, num lugar escuro e inóspito, que aquela mulher deu a luz um menino, dando-lhe por nome Jesus.

Antes de dar outros sentidos a esta narrativa bíblica, devemos olhá-la tal como se apresenta. Longe de um momento de festa, de deleite, o nascimento do menino Jesus aponta para a dura realidade do povo simples, trabalhador, humilde e deixado à margem. Ao nascer ali, o Ungido de Deus já cumpre sua missão de retirar nosso olhar dos palácios e riquezas, para nos colocar diante do corpo e do sofrimento do povo simples e pobre.

É curioso observar como essa narrativa bíblica tem sido deixada de lado na atualidade. Os programas televisivos e impressos ficam alvoroçados nesta data do ano, estimulando na população em geral uma reação absolutamente previsível: consumir. Aproveitam-se das datas comemorativas para justificar simbolicamente o ímpeto de ir às compras.

Entretanto, definitivamente, a narrativa do nascimento de Jesus destoa desse universo natalino de luzes, de muitas cores, do passeio no shopping, das grifes, dos sorrisos artificiais e acolhedores dos vendedores. Destoa também das tantas mensagens estéreis de esperança, que em nada resultam, a não ser camuflar as mais drásticas contradições sociais. Neste mundo de fantasias, é melhor dar lugar a narrativas que possam ser harmonizadas com o salão do shopping e com o espírito capitalista, tal como o Papai Noel.

Ainda que de modo esdrúxulo, é preferível fazer um esforço para recordar aquela narrativa bíblica, que revela como a Graça de Deus nos interpela ao reconhecimento de nosso egoísmo, nossas injustiças e ambigüidades. Natal para mim é isso: a lembrança e denúncia de que ainda milhares de crianças no mundo nascem à margem, sem dignidade, sem oportunidade, fadadas a uma morte precoce, à miséria e ao sofrimento; Natal é a revelação do amor de Deus, que nos constrange a repensarmos o caminho que estamos trilhando em nossa existência; é manifestação da intensão divina de fazer novas todas as coisas. 

Que a Graça de Deus, revelada no menino Jesus, nasça em nós como desejos e ações que frutifiquem num outro mundo possível.

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