7/12/2011

Considerações sobre cristianismo e sociedade no Brasil



Recebi uma criação em um lar cristão, de origem no Protestantismo Histórico de Missão (Mendonça). Após as primeiras leituras e aprofundamentos acerca da história do protestantismo e das ciências da religião, pude situar historicamente minha família e as influências teológicas que recebi desde minha infância.

Sei muito bem que, assim como o catolicismo de Portugal e Espanha (Padroado) deram base para a expansão marítima e comercial (Séc.XVI e XVII), a ética protestante se constituiu como terreno cultural fértil para a consolidação do espírito do capitalismo (Weber).

Pode-se rememorar os movimentos messiânicos e revoltas populares que se inspiravam em uma construção teológica que valorizava a vida e liberdade do camponês no Brasil colonial. A teologia do menino Jesus, originada no catolicismo popular nordestino, identificava a mensagem cristã com as lutas e anseios das camadas empobrecidas e espoliadas. A controvérsia entre protestantes republicanos, no final do século XIX, que se aliaram aos católicos liberais na busca de superação da monarquia, e do modelo de sociedade anti-moderna que persistia no Brasil até então.

Também, deve-se dar fazer justiça aos movimentos teológicos latino-americanos, que atuaram junto às comunidades eclesiais de base, desde as décadas de 1960, assumindo postura declaradamente contrária à ditadura do capital implantada em 1964, que concluiu no Brasil a implantação da modernização e da urbanização desigual e excludente.

No entanto, na América Latina, tanto a evangelização católica quanto a protestante sempre se mostraram a favor dos setores econômicos e classes sociais dominantes. A tendência do discurso sempre foi a de manutenção das relações de poder tal como dadas. Ou se manifestam diretamente contra toda forma de pensamento crítico, considerado subversivo. Ou procuram uma suposta “separação” entre religião e política, assumindo uma passividade cúmplice dos mecanismos de opressão política e econômica.

Mesmo que não seja adepto do materialismo histórico dialético, devo considerar de extrema valia as tantas críticas feitas por Karl Marx, especialmente aquelas dirigidas à religião. Em nossa historia brasileira, sobretudo nos tempos atuais, a religião cristã tem servido de “ópio do povo”, anestésico das angústias das classes trabalhadoras. A espiritualidade cristã tem servido não de instrumento que conduz à liberdade, mas à escravidão da consciência, quando camufla da realidade que nos cerca, impedindo que milhares de pessoas vejam com estranheza as injustiças a que estão submetidas cotidianamente.

A partir da década de 1990, com o fim do bloco soviético, com a globalização econômica e cultural, instalou-se uma crise ideológica que fragilizou os movimentos sociais e partidos políticos, que se posicionavam contra o capitalismo. Paralelamente, a apropriação das mídias por parte das igrejas promoveu a cultura religiosa de massa, que homogeniza a multidão, ao passo que individualiza a fé e a espiritualidade. As celebrações se tornaram momento do entretenimento, da catarse, da ausência de reflexão e da própria consciência de si e da realidade.

Trata-se da espetacularização  dos cultos, que visam atrair fiéis entediados e sofridos com a vida do trabalho. Tais fiéis são agora tratados como clientes, que devem ser agradados pela oferta de produtos espirituais (simbólicos). Vende-se bênçãos e prosperidade para a multidão de trabalhadores imersos na cultura de consumo, que elegem os dígitos da conta bancária como termômetro da presença e da bênção de Deus.

Para concluir estas breves considerações sobre cristianismo e sociedade no Brasil, deixo aqui um texto bíblico que fala por si mesmo, Tiago 5:1-6, que revela o poder de crítica social da mensagem cristã.


  1. Ouçam agora vocês, ricos! Chorem e lamentem-se, tendo em vista a miséria que lhes sobrevirá.  
  2. A riqueza de vocês apodreceu, e as traças corroeram as suas roupas.
  3. O ouro e a prata de vocês enferrujaram, e a ferrugem deles testemunhará contra vocês e como fogo lhes devorará a carne. Vocês acumularam bens nestes últimos dias.
  4. Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que por vocês foi retido com fraude, está clamando contra vocês. O lamento dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos.
  5. Vocês viveram luxuosamente na terra, desfrutando prazeres, e fartaram-se de comida em dia de abate.
  6. Vocês têm condenado e matado o justo, sem que ele ofereça resistência.

Um comentário:

  1. Valeu Gidalti, tentarei ser bem sucinto no comentário.
    Primeiramente, gostaria de sugerir no infográfico NOVOS OLHARES, aquele famoso "óculos".
    Em segundo lugar, se me permites, gostaria de te parabenizar pela voz profética em meio ao VALE DE OSSOS SECOS (marginalizados sociais - povão), do qual nos encontramos hoje. Como mesmo dissestes, a religião continua sendo "ÓPIO DO POVO" (MAX), onde algumas lideranças, sejam elas, no campo político, econômico, e até mesmo religioso, se aproveitando desse farto banquete, ou seja, da ignorância e constantes amarguras do povo, tirando proveitos em benefício próprio, sem mesmo se importar com a verdadeira dor dos marginalizados sociais. Mas nem tudo está perdido. Deus não perdeu, não perde, e nunca perderá o controle sobre sua criação. O Espírito Divino nunca deixará de levantar verdadeiros profetas, em meio ao VALE DE OSSOS SECOS. Isso porque, quem dá vida e liberdade aos ossos secos é Ele, porém, através do grito do profeta.

    Franklin (Seeeeeelva)

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