9/29/2011

A história não deve ser feliz



Esta semana estive em Goiás Velho, antiga capital de Goiás, quando pude visitar o Museu daquela cidade, que fica onde funcionava a antiga cadeia pública. Naquele lugar, muitos escravos ficaram presos, além de outros mestiços, mulatos e negros após a abolição da escravatura.  Ali pude encontrar instrumentos utilizados no cativeiro de seres humanos escravizados, seres humanos explorados em sua força de trabalho até o último fôlego de vida. Foi quando refleti que estas marcas de nossa história nunca devem ser esquecidas, para que a repudia e melancolia por elas causadas em nós, nos constranja a semear hoje um futuro sem barbárie.
Pude concordar que “a história não deve ser feliz”. Essa afirmação pode parecer estranha para muitas pessoas, pois nossa cultura está imbricada de uma forma de ver a vida, uma jeito de fazer história sempre otimista. Durante muitos séculos, a sociedade ocidental tem se firmado na premissa que a história tem um sentido, uma direção. Para Santo Agostinho, o sentido da história não dependia da vontade dos homens, mas dos desígnios de Deus, que a tudo confere uma coerência, uma convergência para sua soberana vontade.
Sob esta forma de ver o mundo, as pessoas consideram que as coisas sempre caminham conforme a vontade de Deus. As histórias de vida, as narrativas pessoais, nesta perspectiva, terminam com frases típicas como: “Deus está no controle”, “tenha calma, tudo isso vai passar”, “tudo vai terminar bem”. Trata-se de um otimismo para a história, mesmo que tudo pareça que vai terminar em catástrofe. E, quando acaba em catástrofe, as pessoas tendem a buscar conforto nos desígnios soberanos de Deus, que estaria sempre olhando por tudo, e permitiu a catástrofe com alguma finalidade maior que não compreendemos.
Na modernidade, sobretudo a partir do século XIX, mais e mais pessoas começaram a substituir aquela antiga visão teológica da história pela visão positiva. O positivismo de Augusto Comte procura substituir a visão teológica de mundo pela visão positiva-racional. É claro que isso é apresentado como algo “natural” que ocorre com todas as sociedades em processo evolutivo, mas se trata de uma intenção, de um projeto de sociedade, que vê na religião a causa de obscuridade e trevas de pensamento. Esse determinismo-evolucionista da sociedade tem sido questionado, sobretudo ao se constatar que mesmo na sociedade industrial, muitos seguimentos sociais ainda possuem a religião como elemento estruturante das subjetividades.
Ainda assim, nossa sociedade brasileira tem sofrido muita influência dessa forma de fazer história, otimista, não mais sob a perspectiva do controle de Deus, mas sob o otimismo do progresso moderno. Desta feita, a história oficial e as narrativas de vida deveriam sempre terminar com um ato heróico, uma atitude que suscite nas pessoas uma inspiração e uma esperança de que tudo vai ficar melhor, uma esperança que as coisas sempre evoluem para melhor. Afinal, “isso é uma lei natural” das sociedades humanas e da história.
Como visto, parece que a história positiva racional, além de encontrar dificuldades em substituir as narrativas teológicas de vida, quando consegue, acaba por reproduzir as estruturas metafísicas religiosas imbricadas na sociedade. A modernidade tenta substituir os mitos teológicos pelos mitos da razão, na tentativa de oferecer segurança, e substituir o “controle de Deus” pelo “controle da razão” sobre a natureza e sobre a história. Este jeito de fazer história, seja teológico, seja positivo, deve sempre ser otimista, esperançoso e feliz. Porém, as pessoas, inspiradas por esta história são conduzidas a reproduzir a vida como ela está, reprimindo a capacidade de suspeitar, de questionar os rumos da história tal como são impostos pelas condicionantes materiais e ideológicas.
Neste sentido, a história deve ser triste, deve suscitar a indignação e a melancolia. O discurso que afirma que tudo vai acabar bem é falso! Para milhões de escravos trazidos da África para a América a história não acabou bem. Pelo contrário, acabou repleta de dor, sofrimento, separação violenta da família, perda dos amigos e familiares queridos, angústia, revolta e morte. A história deve revelar as atrocidades humanas, não como divertimento dos filmes de Hollywood, que banalizam a violência, fazendo com que as pessoas considerem a barbárie como algo natural. Não! A história deve suscitar indignação, repulsa, asco e náusea nas pessoas; deve provocar nelas esta intuição de que é necessário rever o sentido e os rumos de nossas vidas.
O que proponho aqui, inspirado pela Teoria Crítica, é uma visão dialética da vida, da sociedade e da história. Não aquela dialética com tônica nos processos de síntese, que acabam por reproduzir a racionalidade escatológica de que tudo acabará bem, mas com ênfase numa perspectiva antitética de mundo, que suspeita de toda e qualquer proposta de sociedade que se baseie na coisificação do humano, na barbárie e no totalitarismo (político, ideológico ou cultural). Trata-se de um jeito de narrar a história que re-eduque a sensibilidade humana, que desconstrua subjetividades embrutecidas, que naturalizam a violência, e que acabam por legitimar as atrocidades econômicas, políticas e bélicas que ainda perduram na sociedade contemporânea.
Concluo trazendo uma advertência, enquanto teólogo. Hoje, a teologia deve se libertar do papel de conformação ideológica das massas. Deve negar a racionalidade da “história feliz”. Deve cumprir sua missão de profecia e denúncia das barbáries, contra todo ato anti-humano, que se revela anti-divino. Para isso, a teologia deve dissociar a “escatologia” dos discursos deterministas, pois a perfeita vontade de Deus não se revela em um controle absoluto das pessoas, nem da história. Deus se revela como presença amorosa que nos interpela, cotidianamente, a negar este mundo do jeito que está e a suscitar o novo.

2 comentários:

  1. Fiquei imensamente feliz e emocionado ao ler este texto. Ele reflete o meu pensamento, mesmo que eu não expresse com tanta sabedoria e propriedade como você faz, afinal o abismo cultural entre nós é muito grande em contraste com o sentimento, que nos aproxima num só pensamento.
    Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Meu amigo Celso, o sentimento vai além dos conceitos acadêmicos, por isso ele é porta para libertação de tantas mentes cativas dos dogmas conceituais, que refletem a busca pelo poder. Neste sentido, "A letra mata, e o Espírito vivifica".

    ResponderExcluir

Pesquisar este blog