10/14/2011

Modernidade, Teologia e Criação: a dimensão ecológica da salvação no pensamento de John Wesley”





Apresentação

Apesar da progressiva destruição do planeta em que vivemos, evidente para quem tem olhos para ver, a maioria das igrejas cristãs ainda não se convenceu de que o cuidado com a criação é parte inerente de sua missão, e não simples adendo imposto por alguns militantes ecológicos. Anunciando um falso espiritualismo, alheio às Escrituras, não são poucos os que se refugiam no individualismo moderno, enquanto aguardam de forma complacente a salvação vinda dos céus. Há também os que se apresentam como profetas do apocalipse e preveem o total aniquilamento da terra como parte do plano divino em função do pecado humano. Para estes, a atual crise ambiental é só mais um dos sinais de que “o fim está próximo”. O resultado é sempre o mesmo: braços cruzados diante do destino supostamente inexorável.

Felizmente, Gidalti Guedes da Silva rompe com esta visão dualista, antropocêntrica e egolátrica para, a partir da teologia de John Wesley, sublinhar a dimensão ecológica da salvação. Não se pense que o autor se limita a reproduzir servilmente a sua peculiar tradição confessional. De modo algum! O próprio Wesley é relacionado com a herança cristã mais antiga, confrontado com o contexto inglês do século XVIII e com seus intérpretes contemporâneos, sobretudo brasileiros, e, por assim dizer, dialoga com outros pensadores de diferentes persuasões e épocas. Conquanto nem sempre expressa, a perspectiva amazônica do autor está pressuposta em toda a obra, como emerge no grito dos primeiros habitantes desta terra, lembrados já nas primeiras páginas: “Exigimos o respeito de quem não conhece a floresta amazônica” (Almir Narayamoga Surui).

A combinação de todos estes elementos alimenta e dá suporte não apenas para a reflexão, mas também para a prática de todas as pessoas, metodistas ou não, que abraçam o compromisso com a natureza e a vida em todas as suas formas. Elas entendem que, nos dias de hoje, a regra áurea evangélica (Mt 7.12) deve se estender a toda criação, e não exclusivamente aos seres humanos. Consequentemente estimo que não seria infiel à sadia provocação do autor, caso parafraseasse a conhecida frase de Wesley, tantas vezes citada, como segue: O evangelho de Cristo não conhece religião senão a ecológica; não conhece a santidade senão a santidade ecológica. Grato, amigo, por nos lembrar destas verdades!

 
José Carlos de Souza
Pastor metodista
Doutor em Ciências da Religião, concentra suas pesquisas e atuação docente em Teologia e História da Igreja, principalmente nos Estudos Wesleyanos, com destaque à concepção de igreja no pensamento de John Wesley.
Professor na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista
Universidade Metodista de São Paulo







prefácio

Sinto-me honrado pela oportunidade de poder compartilhar algumas poucas palavras de alegria e satisfação, depois de ter lido este estudo. Satisfação por ver um aluno trilhando seu caminho, pensando não somente em si, seu bem estar e sua carreira pessoal, mas, abraçando a difícil tarefa de conjugar, nos tempos de hoje, o mundo real com uma tradição teológica e eclesiástica. Enquanto professor de teologia, eu não poderia ficar mais feliz.

Neste estudo, vejo cumprida a tarefa de um fazer teológico de relevância, o qual deve: engajar-se pela vida na sua abundância, mediante a contribuição da igreja, e investigar o que coloca a vida em perigo, usando a hermenêutica teológica para não ceder, até que se revele algo que nos faça compreender, ter compaixão e nos conduza ao comprometimento.

Para minha alegria, Gidalti Guedes da Silva cumpre o que promete. Ele introduz com competência, numa contribuição teológica brasileira única, o chamado quadrilátero brasileiro. Trata-se de uma hermenêutica teológica que propõe ler a Bíblia não somente com a ajuda do saber acumulado pela tradição cristã, a partir da ampla experiência humana e por meio do uso prudente da razão, mas, também, a partir da criação.

Esta proposta vai além da clássica compreensão da criação como fonte da revelação. Pelo horizonte da criação, essa hermenêutica conduz o/a interprete a ler o texto não de uma forma cognitivista, mas, a considerar o aspecto da corporeidade e, no mesmo momento, superar não somente o antropocentrismo, como também o androcentrismo.

É nesta perspectiva pluri-central que o ser humano está se recolocando no seu lugar na criação, indo além das propostas da modernidade clássica. Quem lê assim a Bíblia, por exemplo, Genesis 1, não se entende mais como o coração da criação, como seu grande objetivo e sua grande finalização. Pelo contrário, passa a enxergar que tudo que foi criado antes de nós pode viver sem nós, mas, nós não vivemos sem a terra, sem o mar, sem o ar, sem as plantas e sem os animais.

Assim, desejamos a este pensador apaixonado pelas causas da Amazônia e da Igreja, que seu livro seja estudado, suas intuições e alegações sejam compreendidas e transformadas em ações concretas no cotidiano.   


Helmut Renders
Pastor metodista
Doutor em Ciências da Religião, possui estudos na área de Teologia Sistemática e História, atuando principalmente nos seguintes temas: teologia sistemática, teologia wesleyana, teologia e cultura, teologia sustentável, iconologia, teoria da imagem e análise de discursos imagéticos.
Professor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista
Universidade Metodista de São Paulo.

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