11/06/2011

O chapéu de vovô: memórias líquidas na sociedade do consumo


Curioso como o convívio com as pessoas, nas situações mais inusitadas, pode oportunizar aprendizados maravilhosos. Eu estava no salão, para raspar os cabelos que ainda me restam, quando Celeste me pediu para começar o serviço. Neste momento tirei o chapéu da cabeça e perguntei se ela poderia guardá-lo. Pedi que fosse cuidadosa, pois não se tratava de qualquer objeto, mas o chapéu que pertencia a meu avô paterno José Laurindo.

Celeste também se recordou de um objeto de família, um prato e uma colher que sua mãe usou para lhe dar papinha quando ainda era criança. Quando Celeste teve sua filha, pode usar o mesmo prato e colher para alimentar sua bebê. Agora, a neta, já crescida, filha de Celeste, teve um filho. A colher se perdeu, mas o prato ainda está de posse da família, e será usado para dar papinha para o bisneto. Três gerações de mães usaram o mesmo objeto para alimentar seus bebês.

Ao ouvir Celeste, pude me questionar sobre o valor que as coisas tem para nós. O “prato da papinha” e o “chapéu do vovô” não são meros objetos, eles carregam consigo uma história, despertam nossas memórias, nos dão um sentido de continuidade, de origem. Mais que um utensílio, aquele prato aponta para a transmissão de um legado, de mães que ensinam suas filhas a serem mães, apontando para um tempo em que a família ocupava lugar de evidência na transmissão de valores. O chapéu, que está comigo desde a morte de vovô, reaviva minhas memórias, trás consigo as narrativas da família acerca da vida daquele homem negro, nascido em 1904, que aprendeu a ler com as narrativas bíblicas, e que superou o olhar preconceituoso e racista com trabalho honesto.

Ao fazerem parte de nossas vivências cotidianas, os objetos e utensílios deixam de ser meras coisas. Eles estão carregados de sentido, e se definem para além de sua materialidade, isto é, são definidos a partir da relação destes com os sujeitos. Estes sentidos se constituem a partir tanto das narrativas pessoais, quanto do contexto sociocultural. Vale ressaltar que, além das coisas serem definidas na relação com os sujeitos, os próprios sujeitos se constituem na relação com as coisas, o que abre a possibilidade de uma crítica fundamental à sociedade contemporânea.

Durante aquela conversa com Celeste, apresentei a seguinte questão: - Celeste, você já pensou como muitas de nossas memórias se perdem, pois cada vez mais os objetos se tornam descartáveis? Nossa sociedade consumista dá prestígio a pessoas que buscam o novo, o prato novo, o chapéu novo, o novo carro (a nova música), negando a possibilidade de que muitas coisas continuem portando consigo nossas memórias. A frenética busca do novo nos faz perder o sentido de continuidade. A cultura de consumo contribui para que as memórias se tornem líquidas, descontínuas, e junto com as memórias se perdem os valores e tradições familiares.

Existem coisas, memórias e valores que precisam de nosso cuidado. Sei que estas impressões revelam meu ser contraditoriamente nostálgico, que dialoga com as dinâmicas do mundo globalizado, mas que tem sérias suspeitas sobre a cultura de consumo que a tudo pretende homogeneizar. Compreendo que o fortalecimento das culturas locais é crucial para fazermos resistência aos ditames da globalização consumista, o que deve ocorrer desde nosso cotidiano, no cuidado nostálgico de elementos importantes das tradições familiares.

Aquela conversa com Celeste, de modo tão inesperado, me mostrou que não posso sucumbir ao fetich da mercadoria, pois, se isso ocorrer, também meu ser se tornará mercadoria. Reificados, reduzidos a coisas que são compradas e vendidas, com suas memórias líquidas, os sujeitos acabam por relativizar sentidos, sentimentos, valores e princípios. É neste momento, que busco me apegar às memórias de vovô, ao chapéu de vovô, e recordar de onde venho, quem sou, e quais responsabilidades tenho para com a sociedade que vivo.

Um comentário:

  1. Buscar nossas origens e ir dentro de nossa própria história como seres incompletos.

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