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11/06/2011

[Cap. LIVRO] As coisas velhas passaram, eis que tudo se fez consumo.


Publicado:
SILVA, Gidalti Guedes. As coisas velhas passaram, eis que tudo se fez consumo. In: Vinícius Seabra. (Org.). Teologia de pé de pequi: reflexões bíblicas contextualizadas ao cerrado. 1ed.Goiânia: Publicar, 2016, v. , p. 102-114.


O chapéu do vovô
Estava no salão, para cuidar dos cabelos que ainda me restam, quando a cabeleireira Celeste indagou-me se poderia iniciar seu trabalho. Neste momento tirei o chapéu da cabeça e perguntei se ela poderia guardá-lo. Pedi que fosse cuidadosa, pois não se tratava de qualquer chapéu, mas do chapéu-de-vovô, mais especificamente do meu avô José Laurindo da Silva, já falecido, objeto aquele que trazia consigo muitas memórias.
Celeste também recordou de dois utensílios de família, um prato e uma colher, usados por sua mãe para dar-lhe papinha quando ainda era criança. Quando Celeste se tornou mãe, pode usar o mesmo prato e a mesma colher para alimentar sua filha. Agora, a neta, já crescida, filha de Celeste, pariu um menino. A colher se perdeu, mas o prato ainda está de posse da família e será usado para dar papinha ao bisneto. Três gerações de mães usaram o mesmo objeto para alimentar seus bebês.
O “prato da papinha” e o “chapéu do vovô” não são meros objetos. Eles carregam consigo uma história, despertam nossas memórias, dão-nos um sentido de origem e de continuidade. Mais que um utensílio, aquele prato aponta para a transmissão de um legado, de mães que ensinam suas filhas a serem mães, apontando para um tempo em que a família ocupava lugar de evidência na transmissão de valores. 
O chapéu, que está comigo desde a morte de vovô, reaviva minhas memórias, traz consigo as narrativas da família acerca da vida daquele homem negro, alto, de corpo atlético, nascido no início do século XX, que aprendeu a ler com as narrativas bíblicas e que superou o olhar preconceituoso e racista com trabalho honesto e conduta ilibada. Ao fazerem parte de nossas vivências cotidianas, os objetos e utensílios deixam de ser meras coisas. Na relação com os sujeitos, os objetos são carregados de sentido e se constituem para além de sua materialidade. Vale ressaltar que, além das coisas serem definidas na relação com os sujeitos, os próprios sujeitos se constituem na relação com as coisas, o que abre a possibilidade de uma crítica fundamental à sociedade contemporânea.
Durante a conversa com Celeste, indaguei: - Você já pensou como muitas de nossas memórias se perdem, pois, dia-a-dia, mais os objetos se tornam descartáveis? Em um simples diálogo com a cabelereira, ficou evidente como a sociedade consumista dá prestígio a pessoas que buscam o novo, o prato novo, o chapéu novo, o novo carro, a nova música, a nova doutrina, a nova unção, negando a possibilidade de que muitas coisas continuem portando consigo nossas memórias, sentimentos e nossa própria identidade.
Aquele diálogo com Celeste provocou em mim uma inquietação, fazendo-me pesquisar e refletir de modo mais sistemático sobre as possíveis influências da cultura do consumo sobre a formação dos sujeitos e, consequentemente, sobre a espiritualidade cristã na sociedade contemporânea. As linhas a seguir apresentam alguns resultados destas pesquisas e reflexões.

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Entre em contato: prof.gidalti@gmail.com

Um comentário:

  1. Buscar nossas origens e ir dentro de nossa própria história como seres incompletos.

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