MEMORIAL DESCRITIVO DE MINHA FORMAÇÃO DOCENTE


"Atualizado para o Processo de Seleção Discente 
para o Doutorado em Ciências da Religião da PUC-GO.

Fui constituído no caminho da vida, em uma relação dialógica com todas as formas de condicionamentos materiais e culturais à subjetividade. Sou fruto da minha relação com o mundo, refazendo-me a cada dia a partir das memórias e dos momentos vividos no presente. É no presente que sou desafiado a superar a angústia de decidir, de ser-no-mundo-com, e de assumir as responsabilidades por estas escolhas, mediante um processo reflexivo que permita certa medida de consciência. Dito isto, dedico as linhas abaixo a um memorial descritivo de meu processo formativo, perpassando desde a influência da família aos estudos formais.
Quando nasci, fui chamado Gidalti Guedes da Silva, nome pelo qual atendo, nome no qual me tornei. Venho de uma família brasileira de missionários protestantes históricos, de classe média baixa. Tive acesso a boas escolas, além de diariamente ver meu pai e minha mãe se dedicando aos livros e a tarefas burocráticas das mais diversas. Meu pai é graduado em Teologia, Graduado em Letras Francês e Pós-graduado em Estudos Wesleyanos; é Pastor e Capelão Militar e sempre buscou manter o equilíbrio entre a reflexão racional e os sentimentos. Ele é um homem profundamente idealista e preocupado em deixar uma contribuição social relevante. Minha mãe é graduada em Contabilidade, Especialista em Educação e possui curso livre em Teologia, mais pragmática e preocupada em manter os pés no chão. Também é muito sensível, carismática e atuou como educadora de juventude nas comunidades de fé por onde passamos. Na convivência com um irmão músico erudito, Aluísio Laurindo Jr., pude apreciar elaborações musicais de maior complexidade e refletir sobre interdisciplinaridade. Desde cedo, eu e meu irmão fomos orientados por nossos pais sobre o valor dos estudos, pois seria a maior herança que eles poderiam nos deixar.
A experiência na comunidade de fé foi decisiva para minha formação, pois a participação constante das atividades litúrgicas, artísticas e musicais desenvolveram certa facilidade de falar em público, lidar com pessoas e liderar grupos. Também foi a experiência comunitária que conferiu um sentido ético e estético para minha atuação profissional.
Nos anos de 1998 e 1999, estudei teologia no Conselho Amazônico de Igrejas Cristãs (CAIC), em Belém do Pará. Foi quando tomei conhecimento do pensamento de Gustavo Gutierrez, Rubem Alves, João Batista Libanio, Pedro Casaldáliga, Frei Beto, Leonardo Boff, Clódovis Boff, dentre outros. A ênfase destes autores está no cultivo de uma espiritualidade marcada pela opção pelos pobres e defesa do oprimido. Neste sentido, minha aproximação da crítica marxista ao sistema capitalista se deu por meio dos estudos teológicos. Isso sempre me intrigou bastante, por que a maioria dos marxistas seculares que encontrei apresentava uma aversão ao cultivo da espiritualidade, tratando a experiência religiosa, de modo genérico, como mero artifício ideológico, “ópio do povo”. Esta foi uma contradição teórica tratada com maior profundidade durante os anos seguintes.
Os procedimentos didáticos utilizados durante as aulas no Curso ecumênico de teologia também marcaram profundamente minha formação. As dinâmicas de grupo facilitavam a partilha dos saberes dos alunos e professores. A utilização do lúdico, da música, das artes visuais e das dinâmicas corpóreas promoviam experiências formativas que me conduziram a desconstruções profundas. Descobri a beleza do outro, do que pensa diferente, do católico conservador, dos irmãos franciscanos, do espírita e do candomblecista. Este processo não ocorreu pelo simples conceito, mas pela revisão de meu olhar, de minha perspectiva e sensibilidade. Na época eu não sabia, mas hoje tenho consciência que Henrique Düssel e Paulo Freire tem servido de fundamento epistemológico para esta forma de ensino-aprendizagem. Ali experimentei, na condição de aluno, a utilização da dialética na didática; também compreendi o valor de técnicas e métodos que contemplam o ser humano na sua integralidade no processo educativo.
Em 2000, iniciei os estudos teológicos reconhecidos pelo MEC, na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, na Universidade Metodista de São Paulo. Ali tive a grata satisfação de ser aluno de grandes mestres, como o professor Claudio de Oliveira Ribeiro, José Carlos de Souza, Magali Cunha, Milton Schwantes e Rui de Souza Josgrilberg. Sob a orientação destes professores, pude conhecer a obra de autores como João Wesley, Martinho Lutero, Paul Tillich, Henrique Dussel, Antônio Gouveia de Mendonça, Mórtimer Árias, Miguez Bonino, e outros tantos autores que influenciaram diretamente em minha maneira de compreender a realidade e a teologia cristã. Destaco, ainda, a contribuição e influência do Prof. Dr. Jung Mo Sung, na ocasião responsável pelas disciplinas no campo da Sociologia da Religião. Fui encantado por sua maneira própria de perceber a influência dos condicionantes econômicos à espiritualidade humana, além de sua forma de conduzir os discentes em um processo maiêutico de descobertas.
Como busca de conciliar o pensamento teológico metodista com as contribuições da Teologia Latino-Americana, antes de concluir a Graduação, tive a honra de publicar meu primeiro artigo na edição nº 9 da Revista Caminhando (Revista da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista), com o título “Por uma espiritualidade wesleyana para a América Latina”.
Por fim, destaco a contribuição do Prof. Dr. Clóvis Pinto de Castro, meu orientador de TCC, ao auxiliar-me na compreensão das dinâmicas da fé no contexto urbano brasileiro. Foi durante suas orientações que tive acesso pela primeira vez ao pensamento de Hannah Arendt (filósofa e socióloga frankfurtiana). Durante a realização do trabalho intitulado “Eclesiologia Urbana: Forjando uma Igreja para o Contexto Urbano Brasileiro”, pude aprofundar minha compreensão acerca do processo de socialização no atual contexto moderno, capitalista, industrial e urbanizado. Outro tema que se destacou foi o processo de secularização e seu impacto sobre o consciente coletivo. Nasce aí meu interesse pela formação do sujeito na sociedade contemporânea, que foi se aprofundando com o passar dos anos.
Em 2004 recebi o convite da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista para integrar a primeira turma do Curso de Especialização em Estudos Wesleyanos (teologia e história Metodista), recebendo bolsa de estudos. A pesquisa desenvolvida durante esta Especialização teve por tema: “A Importância da Criação para o Método Teológico Quadrilátero Wesleyano: subsídio para uma eco-teologia da salvação”. Durante a pesquisa, sob orientação do Prof. Dr. Helmut Renders, aprofundei leituras sobre autores como Peter Berger, Harvey Cox, Jurgen Moltiman, Leonardo Boff, dentre outros, no intuito de melhor compreender o processo de Secularização da Criação e seu impacto no método teológico. O resultado deste TCC, com alguns pequenos ajustes, foi publicado em 2011, como um pequeno livro intitulado “Modernidade, Teologia e Criação: a dimensão ecológica da salvação no pensamento de John Wesley”.
Em 2010, ingressei no Mestrado em Educação da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), oportunidade que marcou decisivamente minha experiência acadêmica. Sob orientação da Profa. Dra Maria do Carmo dos Santos, pude conciliar reflexões filosóficas, históricas e sociológicas no intuito de investigar o tema: “O Princípio Curricular da Estética da Sensibilidade: Modernidade, Estética e Educação sob uma Perspectiva Dialética”. O questionamento sobre a formação estética dos sujeitos na modernidade foi de extrema importância, sobretudo pelo fato de ter conhecido o pensamento de Theodor Adorno, Horkheimer e Zygmunt Bauman, de ter realizado leituras de outros autores adeptos da Teoria Crítica no Brasil, como Antônio Álvaro Zuin, Bruno Pucci e Renato Ortiz, além dos estudos sobre E. Hussel, Heidegger, Emile Durkheim, Pierre Bourdieu, Paulo Freire, Moacir Gadotti, Franco Cambi, dentre outros autores relevantes.
Foi durante o mestrado que pude dar um salto qualitativo ao encontro de fundamentos epistemológicos para o desenvolvimento de pesquisas em ciências humanas, ao conciliar minha formação no campo das ciências da religião com a proposta da Teoria Crítica. Além da relevante formulação do conceito de Indústria Cultural e de sua crítica ao projeto da modernidade, o pensamento de Theodor Adorno tem contribuição para o campo epistemológico. Sua abordagem sociológica parte do fundamento que o conhecimento acerca do ser humano se faz por meio de uma constelação de saberes, escapando das abordagens que reduzem o ser humano a olhares fragmentados. Esta abordagem em muito se aproxima do método fenomenológico, porém procura nunca deixar de lado as condições materiais e culturais da existência humana.
A sociologia de Adorno também pode ser intitulada “sociologia dialética”, pois contesta toda forma de compreensão reducionista e coisificante do Ser (reificação), como é comum na sociologia positivista de Comte e Durkheim (e seguidores), ou em algumas abordagens do marxismo ortodoxo. Para Adorno, o sujeito não pode ser reduzido a uma derivação imediata do seu contexto histórico, pois a dimensão estética do sujeito lhe confere a possibilidade de uma relação de mão dupla entre indivíduo e coletividade. Estou encantado pela hermenêutica dialética da sociedade, que permite compreender elementos da infraestrutura e da superestrutura como complementares e que se influenciam em via de mão dupla. A sociologia dialética releva tanto os condicionantes da coletividade social sobre os indivíduos, como ressalta a dinâmica como os indivíduos se apropriam destes condicionantes, tendo um olhar especial para a capacidade de superação por meio de uma leitura antitética de mundo (dialética negativa), que confere novos olhares, aponta para novos horizontes, novas possibilidades de ser no mundo.
Vale ressaltar que Adorno recebeu forte influência de Emanuel Kant, Hegel, Karl Marx, Lukacs, Edmund Hussel, Kierkegaard e de outros autores como o próprio Paul Tillich, nosso conhecido teólogo e filósofo existencialista. Quando Adorno desenvolveu sua tese sobre a “Estética em Kierkegaard”, visando ingresso na Escola de Frankfurt, recebeu orientação de Paul Tillich, o qual havia se tornado referência europeia no estudo do existencialismo, extrapolando os ciclos de reflexão teológica.
A experiência formativa do Mestrado, portanto, possibilitou avanços significativos em minha compreensão da vida em sociedade. Ocorreram encontros fabulosos entre os teólogos estudados anteriormente e outros filósofos e sociólogos que possibilitaram uma percepção epistemológica. Esse salto qualitativo torna possível que o pesquisador deixe de simplesmente colher de outro sujeito o resultado de análises de um objeto de estudo, fazendo com que ele próprio alcance relativa autonomia para a construção de novos saberes.
Desde 2013 tenho atuado como docente do ensino superior, nas disciplinas de Cultura Religiosa, Ética, Sociologia e Metodologia do Trabalho Científico, período em que retomei os estudos acerca do fenômeno religioso e da formação do sujeito na sociedade contemporânea, tema que tem provocado inquietações profundas, que podem ser expressas nas seguintes questões. Na difícil tarefa de delimitar um tema de pesquisa que apresente relevância acadêmica e social, aquele que mais se destacou foi: Religião, Formação Moral e Cidadania na Sociedade Contemporânea: o caso dos Metodistas em Goiás.
Pretendo desenvolver esta Pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-GO, motivo pelo qual me inscrevi no Processo Seletivo Discente, nível de Doutorado. De acordo com a estrutura do Programa, a Pesquisa se enquadraria na Linha de Pesquisa “Religião e Movimentos Sociais”. Outro objetivo é integrar o Grupo de Pesquisa “Capitalismo e Religião: a estetização do religioso na cultura contemporânea”, sob orientação do Prof. Dr. Alberto da Silva Moreira.
A escolha deste programa se deu devido à Localização Geográfica, uma vez que resido na cidade de Goianésia-GO, distante cerca de duas horas de Goiânia, o Doutorado em Ciências da Religião da PUC-GO é o mais próximo de minha residência. Também, dois professores de grande relevância para minha caminhada acadêmica indicaram o Doutorado em Ciências da Religião da PUC-GO, dando excelentes referências. Refiro-me ao Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro, atual Secretário Geral da Associação Nacional de Pós-Graduação em Teologia e Ciências da Religião, e ao Prof. Dr. Helmut Renders, atual Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
Concluo este memorial descritivo de minha formação acadêmica dando mais lugar às inquietações que às certezas, aberto para a construção de novos saberes, que possibilitem a constatação do supostamente “obvio” ou o alcance de novas percepções do vivido, sempre no intuito de contribuir qualitativamente para a sociedade na qual estou inserido.

Um comentário:

  1. Boa noite gostei pois passa conhecimento.

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