MEMORIAL DESCRITIVO DE MINHA FORMAÇÃO DOCENTE



Fui constituído no caminho da vida, em uma relação dialógica com todas as formas de condicionamentos materiais e culturais à subjetividade. Enquanto educador, sou fruto da minha relação com o mundo, refazendo-me a cada dia a partir das memórias e dos momentos vividos no presente. É no presente que sou desafiado a superar a angústia de decidir, de ser-no-mundo-com, e de assumir as responsabilidades por estas escolhas[1]. Dito isto, dedico as linhas abaixo a um memorial descritivo de meu processo formativo enquanto educador, perpassando desde a influência da família à formação acadêmica e política.

Quando nasci, fui chamado Gidalti Guedes da Silva, nome pelo qual atendo, nome no qual me tornei. Venho de uma família brasileira de missionários protestantes históricos, de classe média baixa [2]. Tive acesso a boas escolas, além de diariamente ver meu pai e minha mãe se dedicando aos livros e a tarefas burocráticas das mais diversas. Meu pai é graduado em Teologia e em Letras Francês; é Pastor e Capelão Militar (da Reserva) e sempre buscou manter o equilíbrio entre a reflexão racional e os sentimentos. Ele é um homem profundamente idealista e preocupado em deixar uma contribuição social relevante. Minha mãe é Teóloga e graduada em Contabilidade, mais pragmática e preocupada com as questões materiais, sempre procurando manter os pés no chão, ao passo que é muito sensível, carismática e atuou como educadora de juventude nas comunidades de fé por onde passamos. Em casa, também tive acesso à música clássica, ao jazz e à MPB, convivendo com um irmão músico erudito, Aluísio Laurindo Jr. , com quem aprendi a apreciar elaborações musicais de maior complexidade. Desde cedo, eu e meu irmão fomos orientados por nossos pais sobre o valor dos estudos, pois seria a maior herança que eles poderiam nos deixar.

A experiência na comunidade de fé foi decisiva para minha formação docente, pois a participação constante das atividades litúrgicas, artísticas e musicais desenvolveram certa facilidade de falar em público, de lidar com pessoas e de liderar grupos. Também foi a experiência comunitária religiosa que conferiu um sentido ético e estético para minha atuação profissional, mediante o contato com famílias carentes e a inspiração à prática solidária e assistencial.

Durante a Educação Básica, uma das influências mais importantes de meu processo formativo ocorreu durante a 7ª série (atual 8º ano), nas aulas de História, ministradas pelo professor Paulo, educador muito envolvente. Foi uma das primeiras vezes que um professor me conduziu a uma reflexão mais crítica acerca da história. Não fui obrigado a decorar, mas a compreender a dinâmica das mudanças ocorridas na história. Estudávamos o processo de transformações ocorridas no final da idade média, que culminaram no surgimento do capitalismo comercial. Aquelas aulas me conduziram a estabelecer uma relação entre os conteúdos da história e as relações sociais de meu contexto imediato. A conexão entre sala de aula e a realidade vivida foi estabelecida, o que ajudou a repensar minha própria realidade.

Outra experiência formativa de grande relevância ocorreu durante os estudos no curso ecumênico de teologia, realizados no Conselho Amazônico de Igrejas Cristãs (CAIC), em Belém do Pará, em 1998 e 1999. Pela primeira vez tomei conhecimento do pensamento de Gustavo Gutierrez, Rubem Alves, João Batista Libâneo, Pedro Casaldáliga, Frei Beto, Leonardo Boff, Clódovis Boff, dentre outros autores. A ênfase destes autores está no cultivo de uma espiritualidade marcada pela opção pelos pobres e defesa dos oprimidos. Neste sentido, meu acesso à crítica marxista ao sistema capitalista se deu por meio da teologia. Isso sempre me intrigou bastante, por que a maioria dos marxistas seculares que encontrei apresentava uma aversão ao cultivo da espiritualidade, tratando a experiência religiosa, de modo genérico, como mero artifício ideológico, “ópio do povo”. Esta foi uma contradição teórica tratada com maior profundidade somente em meus estudos de Mestrado, 12 anos mais tarde.

Outro fato que marcou os estudos ecumênicos foram os procedimentos didáticos utilizados durante as aulas. As dinâmicas de grupo promoviam a partilha dos saberes dos alunos e professores. A utilização do lúdico, da música, das artes visuais e das dinâmicas corpóreas promoviam experiências formativas que me conduziram a desconstruções profundas. Descobri a beleza do outro, do que pensa diferente, do católico conservador, dos irmãos franciscanos, do espírita e do candomblecista. Este processo não ocorreu pelo simples conceito, mas pela revisão de meu olhar, de minha perspectiva e sensibilidade. Na época eu não sabia, mas hoje tenho consciência que Henrique Düssel e Paulo Freire tem servido de fundamento epistemológico para esta forma de ensino-aprendizagem. Ali experimentei, na condição de aluno, a utilização da dialética na didática; também compreendi o valor de técnicas e métodos que valorizam a integralidade do ser humano no processo educativo.

Nos estudos teológicos que desenvolvi na Universidade Metodista de São Paulo, tive a grata satisfação de ser aluno do professor Jung Mo Sung [3]. A maioria de suas aulas foram ministradas somente utilizando o pincel e o quadro branco. Sentado sobre a mesa, com certa irreverência, ele estava preocupado em fazer o constante mapeamento dos saberes dos educandos. A partir dos saberes revelados, professor Jung estabelecia o vínculo com os tópicos da disciplina, em um processo maiêutico, auxiliando-nos a abrir novas janelas para compreensão dos temas abordados. Aulas extremamente cativantes e intrigantes, ainda que firmadas em um método expositivo-dialogado, sem fazer recurso a outras metodologias.

De 2004 a 2010, atuei como professor de teologia e história na Faculdade Metodista de Teologia (Porto Velho). Durante este período, fui desafiado pelas experiências em sala de aula. Por todos estes anos, minha experiência docente se deu a partir da “imitação” (consciente e inconsciente) dos educadores que mais me influenciaram e, obviamente, não obtive o mesmo sucesso que eles.

Em 2010, ingressei no Mestrado em Educação da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), oportunidade que marcou decisivamente minha existência docente. Entretanto, uma de minhas expectativas com o curso foi frustrada. Eu desejava aprender a ser professor, aperfeiçoar minha prática como educador. Contudo, a tônica do Programa está mais voltada para a reflexão e pesquisa nas ciências da educação, sem dar ênfase ao caráter mais pragmático e cotidiano do educador. Ainda assim, as disciplinas ministradas, o Estágio Docente da CAPES (realizado no curso de Pedagogia da UNIR, sob orientação da Profa Dra Maria do Carmo dos Santos) e a pesquisa desenvolvida foram de vital importância para minha vida e prática educativa.

Durante o Mestrado desenvolvi estudos sobre a Teoria Crítica de Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt. Adorno é um filósofo, músico e sociólogo que insistiu na difícil tarefa de assumir uma visão crítico-dialética do conhecimento e da sociedade. Adorno sofreu influência de autores como Hegel, Marx, Lukács, Kierkegaard, E. Husserl, Freud e Nietsche. Sua maneira de compreender o mundo foi determinante para a construção de sérias críticas ao processo formativo dos sujeitos na sociedade contemporânea. Estou encantado por sua perseverança ética, pelo rigor lógico e lucidez hermenêutica. Os estudos sobre a dialética negativa de Adorno e sua dura crítica à Indústria Cultural ajudaram-me a compreender o possível diálogo entre a crítica marxista e as dinâmicas da subjetividade humana. Também me aproximei de outros autores que sofreram influência de Adorno, tais como Zygmun Bauman, Hanah Arendt, Bruno Pucci e outros adeptos da Teoria Crítica no Brasil. 

A experiência formativa do Mestrado possibilitou avanços significativos em minha compreensão da vida e da sociedade. Ocorreram encontros fabulosos entre os teólogos que estudei anteriormente e os filósofos e sociólogos frankfurtianos e existencialistas, mas que se empenharam em manter o rigor da crítica marxista aos ditames da sociedade capitalista. Estou encantado pela hermenêutica dialética de sociedade, que permite compreender elementos da infraestrutura e da superestrutura como complementares e que se influenciam em via de mão dupla. Também, a sociologia dialética releva tanto os condicionantes da coletividade social sobre os indivíduos, como ressalta a dinâmica como os indivíduos se apropriam destes condicionantes, tendo um olhar especial para a capacidade de superação por meio de uma leitura antitética de mundo, que confere novos olhares, aponta para novos horizontes, novas possibilidades de ser no mundo.

Em 2012, fui convidado a atuar no programa de formação sociopolítica de jovens em situação de vulnerabilidade social, na Casa da Juventude (Coordenadoria Municipal de Políticas Públicas para Juventude), em Porto Velho – RO. Juntamente com os amigos sociólogos Rafael Ademir de Andrade e Batânia Avelar, construímos o projeto pedagógico do programa de formação sociopolítica, orientados pela perspectiva dialógica de Paulo Freire. Foi uma oportunidade singular de vivenciar a educação popular libertadora com maior maturidade teórica e consciência.

Em 2013 ingressei no Corpo Docente da Faculdade Evangélica de Goianésia (FACEG), dedicando-me a disciplinas do eixo das humanidades e, desde janeiro de 2014, atuo na função de Coordenador Acadêmico e Pedagógico da IES, sob a direção do Prof. Me. José Mateus dos Santos. Tem sido tempo de grande aprendizado dos processos burocráticos do ensino superior, além excelente oportunidade para implementar projetos e ações voltadas para a formação docente permanente do docente do ensino superior, tendo como foco inspirá-los a superar as concepções positivistas e tecnicistas de ensino, sentido às concepções mais dialógicas e construtivistas.

Apesar de não acreditar em um destino pré-estabelecido, muito menos em uma dialética determinista dos fatos históricos, tenho a sensação que cada experiência formativa que vivi me conduziram às convicções filosóficas, sociológicas e educacionais que tenho atualmente. Tenho a educação como projeto de vida, constituindo-se como minha tarefa evangelizadora das novas gerações. Quero viver meus dias atuando no cuidado de comunidades, na educação e na ação política libertadora, publicando livros, deixando um legado de atuação social promotora da emancipação das consciências. Desejo deixar boas marcas na vida dos educandos e ser lembrado como alguém que inquietou o pensamento, que ajudou a tirar a consciência da inércia, que fez brotar a inquietude e a inconformidade. Este tem sido meu sentido de vida.


Prof. Ms. Gidalti Guedes da Silva





[1] Minha compreensão de constituição dos sujeitos vem dos teóricos existencialistas, com influência da fenomenologia e da sociologia dialética. Especialmente, cito a influência de Kierkegaard, Edmund Husserl, Heidegger, Sartre e Theodor Adorno.
[2] Antônio Mendonça (em Introdução ao Protestantismo no Brasil) apresenta uma usual classificação do protestantismo no Brasil, dividindo-os entre Protestantismo Histórico e Pentecostalismo. Os primeiros enquadram as igrejas que possuem vínculo histórico com a Reforma Protestante, que tiveram sua origem na Europa, como a Luterana, a Anglicana, a Batista, a Presbiteriana, a Metodista, etc. O Pentecostalismo inclui igrejas originadas no próprio Brasil, que assumiram uma perspectiva teológica de maior diálogo com a cultura popular brasileira, dando ênfase na cura divina e nas experiências extraordinárias com o Espírito Santo.
[3] Teólogo, Filósofo, Doutor em Ciências da Religião e Pós-Doutor em Educação, autor de várias obras, com destaque à “Competência e sensibilidade solidária: educar para esperança” (em co-autoria com Hugo Assmann); e “Conhecimento e solidariedade. Educar para a superação da exclusão social”.

Um comentário:

  1. Boa noite gostei pois passa conhecimento.

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