10/09/2012

Entre Jequitibás e Eucaliptos: Reflexões sobre a formação docente na sociedade contemporânea




Rubem Alves constrói uma breve Estória sobre a formação docente e seus anseios para a sociedade contemporânea. Dentre os pontos levantados neste capítulo “Sobre Jequitibás e Eucaliptos”, Rubem Alves apresenta um dos maiores desafios postos para a formação docente na sociedade contemporânea: devemos formar professores ou educadores? O autor apresenta de modo metafórico os Jequitibás, representando os educadores, e os Eucaliptos, representando os professores.

Educadores e Jequitibás remontam tempos anteriores ao processo intenso de modernização capitalista a que o Brasil fora submetido ao longo das últimas décadas. Os Jequitibás crescem vagarosamente, não sabemos quem as planou. Vivem no habitat natural, seguindo os tempos e espaços dos ciclos e estações. São como velhas árvores, com personalidade, portadores de uma Estória, não substituíveis tão prontamente. Assim são os educadores, eles habitam “um mundo em que a interioridade faz uma diferença, em que as pessoas se definem por suas visões, paixões, esperanças e horizontes utópicos”.

Os Jequitibás são os profissionais adormecidos em processo de extinção. Levam muito tempo para se formar este Educador que tenha como foco a humanização de seu fazer pedagógico e que tenham consciência de seus atos dentro e fora dos espaços de ensino. Os educadores têm a educação como ato relacional, denso, que ocorre entre pessoas, portadoras de descontentamentos e esperanças. A preocupação está na formação da subjetividade, da afetividade, dos valores e da dimensão estética do humano.

Professores e Eucaliptos refletem as intensas transformações promovidas pela indústria, pela urbanização, pelo avanço do capitalismo e pela universalização de uma racionalidade que a tudo busca mensurar, quantificar e administrar. Os Eucaliptos crescem depressa, resultado de um processo administrado de plantio, todos enfileirados, em posição de “sentido”, aparentando maior ordem e adaptação. Enquanto os Educadores-Jequitibás apontam para a idéia de pessoas, os Professores-Eucaliptos remontam a idéia de funções, dando ênfase à produção, ao caráter utilitário, às ações passíveis de controle, gerenciamento, mensuração.

Os Eucaliptos, profissionais mecanizados e que podem ser encontrados em qualquer parte do mundo, levando em consideração que podem ser produzidos (formados) em grande escala e em curto espaço de tempo, se adaptação às condições do mercado. Eles são facilmente substituíveis, por seu caráter idêntico e descartável, vivenciando a educação com foco na reprodução do conhecimento e adaptação dos alunos ao mundo do trabalho, do lucro, das cifras e dos negócios.

Para as condições de mercado vigentes nesta década, estamos formando inúmeros Eucaliptos, isto de forma consciente, tendo em vista que o Estado Brasileiro tem fomentado um programa de formação docente em por todo País, para tentar sanar o déficit de professores da educação básica e do ensino superior. As instituições de ensino superior, atuando por meio do ensino presencial e pela educação à distância, recebem milhares de alunos preocupados com a sua qualificação profissional. Pela pressão e urgência do mercado, este processo educativo é acelerado, assumindo um caráter tecnicista e pragmático. O caráter humanístico e integral da educação é reduzido às necessidades do mundo do trabalho. Isso acarreta em uma deformação dos cidadãos, uma vez que as leis de mercado (firmadas na competição, no mérito e na exclusão) acabam por diluir os fundamentos éticos sobre os quais as sociedades humanas devem se firmar, na busca de superação da barbárie e das contradições socioeconômicas.

Este cenário educacional promove uma metodologia de ensino que visa a reprodução e tem o aluno como um recipiente de informações. O bom aluno deve ter a matéria decorada. O profissional do ensino, neste ponto, preocupa-se em fazer com que seus alunos reproduzam o conteúdo de forma a se ter um bom índice de aprovação. Fica de fora deste processo a capacidade do professor despertar o aluno para a pesquisa. Muito menos a capacidade estimular o educando para ser um cidadão crítico, que questione os condicionantes históricos.

Muitos egressos dos cursos de formação docente, que adentram as salas de aula com o ímpeto de ser um educador e de contribuir para uma educação emancipatória e libertadora, acabam sucumbindo e, por força do sistema educacional vigente, perdem o vigor de seus sonhos e utopias. Assim como a inquisição fez com Galileu que se retratou por dizer que a Terra girava em redor do sol, o educador retorna à função de professor para que seja aproveitado pelo modelo de educação existente. Urge que os profissionais da educação, que atuam como educadores, dialoguem com o caráter administrado da educação na sociedade capitalista, sem reduzirem sua essência docente às práticas tecnicistas e conteudísticas de ensino. Fica o desafio de, enquanto profissionais da educação, vivermos em um habitat de Eucaliptos, sem deixarmos de cultivar uma postura própria dos Jequitibás.

Cledenilson Souza Martins
Gidalti Guedes da Silva
Michael Marçal dos Reis


Um comentário:

  1. NOSSA!ESTOU ESTARRECIDA,O TEXTO É ÓTIMO INFELISMENTE É A REALIDADE DA NOSSA EDUCAÇÃO,MAS ACREDIDO NA MELHORA NO PROGRESSO DA NOSSA EDUCAÇÃO,O GIGANTE ADORMECIDO ESTÁ ACORDANDO E QUANDO ISSO ACONTECER TEREMOS UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA,IGUALITÁRIA E EDUCADA QUE GOZARA DE TODOS OS DIREITOS POLÍTICOS E SOCIAIS.

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