9/29/2013

Você é uma cópia?



Certa vez, em uma aula de Sociologia da Educação, explicava para as alunas acerca dos condicionantes biológicos, econômicos, sociais, culturais e ideológicos que influenciam na formação da personalidade de cada pessoa. Em um segundo momento da aula, dei especial atenção ao impacto que sofremos da Indústria Cultural sobre nossos desejos, o que consideramos belo ou feio. Procurei demonstrar como que, com o avanço tecnológico no campo da comunicação, o rádio, o cinema e a TV tem sido utilizados para a massificação cultural. Milhões de pessoas, cotidianamente, desde a mais tenra infância até a fase adulta, recebem estímulos estéticos, psicológicos e emocionais para se tornarem consumidores. Milhões de crianças e adolescentes se desenvolvem acreditando que podem alcançar a felicidade pelo ato de comprar.

E continuei a explicar que a maioria absoluta das pessoas não possui consciência que a maior parte de seus desejos são fabricados, não possuem originalidade, não são fruto de uma escolha verdadeiramente livre. Pelo contrário, são mero reflexos de estímulos externos, impostos por uma cultura que estabeleceu padrões extremamente rígidos. Neste sentido, não me refiro simplesmente ao estilo do corte de cabelo, à roupa da moda, até porque as grandes metrópoles possuem uma diversidade cultural fantástica. No entanto, em meio a este colorido, existe uma cor que se estabelece no interior de cada pessoa, que se caracteriza pela busca incessante de satisfação pessoal; por uma busca irrefletida por autonomia que conduz ao individualismo; a perda de vínculos afetivos mais sólidos; a relativização de valores familiares e a ilusão de que “consumir” conduz à felicidade.

Em certo momento da aula, procurando despertar aquelas alunas, eu afirmei enfaticamente: você não possui originalidade alguma! Você é mera cópia, pois segue de modo irrefletido as imposições culturais da cultura moderna consumista. O que você chama de liberdade se resume ao direito de escolher o produto na prateleira, o direito de brincar de consumidor até o fim dos teus dias!

Neste momento, uma aluna exclamou em alta voz: - Ahh não professor! Eu não sou mera cópia! Eu tenho sim minha liberdade! O senhor é muito pessimista e está me deixando triste.

Feliz com a reação da aluna, mas sem demonstrar isso, eu respondi: - Então, prove-me que você não é uma cópia! Exerça a capacidade de análise da realidade que está à sua volta e tome decisões que não foram induzidas pelos meios de comunicação de massa! Fuja da superficialidade de conhecimento das pessoas, leia obras completas e não somente o resumo das mesmas, dedique-se à busca de conhecimento e tenha a coragem de propor coisas diferentes. Tenha a ousadia de amar mesmo em um mundo de relações tão líquidas e inseguras.

Hoje, quando penso no ser humano, encontro um universo de possibilidades, pois somos seres não determinados em essência. Mas este uma forma que se estabelece na sociedade e que, a depender da violência material e simbólica com a qual esta forma se estabelece, acaba por reduzir drasticamente este universo de possibilidades. Não creio que o ser humano seja mero reflexo dos condicionantes econômicos e culturais do mundo capitalista. Mas, quando as pessoas não reagem, quando se entregam, aceitando para si as verdades maquiadas como se fossem naturais, acabam se tornando mera cópia, consciências entorpecidas pelo entretenimento e guiadas pelo desejo de sempre ter mais.

E você... é mera cópia?

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