1/16/2015

Sou educador. E o que me dá esperança?



Foi uma boa surpresa me deparar, durante buscas rotineiras na internet, com o artigo científico publicado pela Professora pesquisadora Anny Karine Matias e pelo Prof. Dr. Alexsandro dos Santos Machado (orientador), denominado “Reconstrução e Ressignificação da Práxis: uma análise de narrativas docentes publicadas em blogs”. O artigo propõe uma “reflexão acerca de como se constroem as feições de narrativas docentes publicadas em blogs e como estas expressam memórias, vivências, práticas e transformações de suas práxis pedagógicas” (MATIAS; MACHADO, 2014, p.1).

Os autores analisaram narrativas constantes em blogs de educadores, incluindo o MemorialDescritivo de minha formação docente. Dentre as análises apresentadas destaco:

Dessa maneira, observamos que o narrador (Gidalti Guedes da Silva) ao repensar e relatar sua história de vida, entrevem a possibilidade de ações futuras diferentes. Com efeito, a consciência de si, atua como mola propulsora nos processos de formação e autoformação, a educação passa a figurar como compromisso social e político, “como projeto de vida”, pondo em ebulição a inercia, inquietando e trazendo inconformidade com situações estagnadas, eventualmente instaurando novas formas de pensar e mudanças sociais. (MATIAS; MACHADO, 2014, p.15)

De fato, esta é uma intenção presente no Memorial Descritivo que apresento, fazendo eco ao dito de Freire, segundo o qual  

Minha presença de professor, que não pode passar desapercebida dos alunos na classe e na escola, é uma presença em si política. Enquanto presença não posso ser uma omissão, mas um sujeito de opções. Devo revelar aos alunos a minha capacidade de analisar, de comparar, de avaliar, de decidir, de romper.

Dia a dia tenho me deparado com professores desmotivados pela falta de valorização profissional, pelo pequeno prestígio social da profissão de educador em nosso Brasil. Também tenho visto educadores que, diante dos condicionantes socioeconômicos do capitalismo global, sentem-se impotentes, deixando de compreender suas ações cotidianas em sala de aula como relevantes para o processo de transformação social. Muitos destes educadores acabam assumindo uma postura mais individualista e pretensamente neutra, reduzindo sua atuação docente à mera relação de trabalho e subsistência.

Entretanto, toda essa pretensa neutralidade se constitui como cumplicidade. Trata-se de uma atitude alienadora de si e do próximo, de não envolver-se mais, acreditando que fazendo estará isento de responsabilidade. Esta postura faz com que a prática educativa perca seu sentido libertador e emancipador das consciências. Para não sucumbir ante os condicionantes socioeconômicos e culturais que se agigantam cada vez mais, por meio dos processos de massificação cultural, o educador deve se refazer cotidianamente, assumindo uma consciência dialética de mundo. Isso indica um caminho existencial onde o educador se compreende como parte do mundo e se adapta a ele em certa medita, mas, ao mesmo tempo, esforça-se por se emancipar do mundo, buscando a superação de toda racionalidade desumanizadora que conduz à barbárie.

Ao assumir-se antiteticamente, o sentido de felicidade, completude e realização pessoal e profissional acaba se distinguindo das narrativas de sucesso e realização profissional que são massificadas nos enredos dos filmes e pelo Marketing. A felicidade não está em “ter sucesso” aos moldes da sociedade consumista, mas em perceber na vida dos alunos e alunas pequenos frutos de um esforço educativo voltado para a emancipação dos sujeitos. A realização não está em adaptar-se ao sistema, mas em saber que sua atuação profissional contribui para a promoção de um espírito de "contra-cultura” e que fomenta criativas, muitas vezes inadequadas e desafiadoras da racionalidade administrada.

Parafraseando Romanos 12.1, o educador não deve assumir a fôrma deste mundo, não deve adaptar-se plenamente a ele. Isso não implica, contudo, em negá-lo, afastar-se dele em atitude individualista e indiferente. Significa ter uma consciência de si e do mundo, a ponto de discernir elementos presentes no mundo que devem ser negados, questionados, refutados, ao passo que o educador assume uma “presença engajada”, enquanto voz que faz “resistência” e propõe mudanças.

Desejo que meu semblante não se abata e que meu coração não perca a esperança, como ocorreu com tantos colegas da educação. Para tanto, alicerço meus sonhos e utopias em princípios que não são maculados pelas contingências históricas, mas que me inspiram a atuar historicamente de modo consciente e comprometido.

Cerca de oito anos atrás, em momento de agonia interior, apresentei em orações esse sentimento de inadequação ao mundo, que produzia certo incômodo aonde quer que eu estivesse. Pensei que, talvez, a mera adequação às narrativas de felicidade presentes na cultura de massa me traria um sentimento de pertença à totalidade social, e por conseguinte, paz interior. Questionei se não seria mais feliz em harmonizar-me ao mundo, deixando de enxergar as contradições presentes nele, sem questionar, sem saber. Cheguei a recordar de um ex-aluno de teologia que, no final do curso, aproximou-se de mim e disse: - “Professor, eu era mais feliz antes de conhece-lo. Às vezes tenho saudade dos tempos de ignorância, pois era mais feliz”.

Nos instantes finais daquele momento de oração, mais preocupado em ouvir e refletir que em falar, pude discernir que este sentimento antitético (dialético, calcado nas contradições interiores) e de inadequação ao mundo é o fundamento que dá sentido maior à minha existência. A felicidade, portanto, não reside em uma harmonia interior fruto da adequação ao mundo. A felicidade está na consciência de minha inadequação e do desejo de me antagonizar à racionalidade totalitária, egolátrica e consumista, que alimenta o desejo de sucesso e a própria economia global.

Atrevo-me a entrelaçar as linhas da fé com as da educação, concluindo com uma das convicções mais fortes que tenho: Enquanto me sentir inadequado; Enquanto a inconformidade retirar da alma a confortável paz alienada, significa que ainda consigo ouvir a voz do Espírito. E se ainda ouço Sua voz, disto retiro esperança e razões para sorrir, conferindo maior sentido para uma ação educativa engajada em processos de resistência e transformação.

Referências

Matias, Anny Karine; Machado, Alexsandro dos Santos. Reconstrução e Ressignificação da Práxis: uma análise de narrativas docentes publicadas em blogs. In: REVASF, Petrolina, PE, vol. 4, n. 6, p. 27-48, dez. 2014. Disponível em: < http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:ebVk_IrRAp4J:www.periodicos.univasf.edu.br/index.php/revasf/article/download/563/247+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br>, acesso em: 15 de janeiro de 2015.

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