6/29/2015

CONSIDERAÇÕES ACERCA DO CASAMENTO GAY



Cerca de um ano fui interpelado por um aluno do Curso de Direito, na disciplina Ética Geral, sobre qual o meu posicionamento acerca do casamento gay. Como é meu costume, apresentei as prováveis opções diante dos autores estudados. O aluno insistiu na pergunta, enfatizando:

“- Professor, qual o seu posicionamento enquanto cristão evangélico?”.

Diante desta pergunta, resolvi não recuar e tentei responder de modo sucinto. Abaixo seguem alguns argumentos que apresentei diante da classe.

1) Sou defensor de um Estado laico – A história da humanidade tem demonstrado que todas as vezes que o Estado assumiu como oficial uma religião “A” ou “B”, os governantes e a própria justiça foram utilizados para retirarem do outro a liberdade de expressão religiosa, chegando a legalizar atos de extrema violência contra aqueles que não professavam a religião oficial. Portanto, considero como extremamente positivo a constituição de um Estado conciliador e tolerante (como é o caso da Inglaterra) ou de um Estado laico (como é o caso do Brasil).
Além do quê, a Igreja cristã deve dar testemunho do Evangelho nos espaços públicos, que incluem a própria esfera política e socioeconômica da sociedade, contudo, ela não deve aliançar-se com o Estado de tal modo, que sua autonomia a capacidade crítica sejam prejudicadas. A missão da Igreja inclui sua dimensão profética à sociedade, de denúncia de toda e qualquer forma de injustiça, violência e discriminação. Para tanto, ela carece sempre de liberdade, a qual seria comprometida se não vivêssemos em um Estado laico.

2) O Estado deve regular fatos sociais – as uniões estáveis homoafetivas/homossexuais são fatos sociais. Quer concordemos ou não, nossa sociedade possui cada vez mais casos de homossexuais que decidem aliançar-se afetivamente. O ESTADO, enquanto laico, deve zelar para que as partes envolvidas neste contrato tenham seus direitos garantidos. Neste sentido, mesmo enquanto cristão, não sou contra a celebração do contrato civil entre casais homoafetivos.

3) O ensino do casamento heterossexual, conforme a moral cristã – Este mesmo ESTADO laico não pode assumir uma postura laicista ou mesmo ateísta. Ele deve respeitar o Art. 5º. da Constituição Federal (CF), que garante aos indivíduos o direito de professarem sua fé. Para os cristãos, tanto católicos quanto protestantes/evangélicos, a formação heterossexual da família é elemento basilar da doutrina moral. Portanto, o ESTADO deve respeitar este direito, o de não ser homossexual, e o de ensinar valores morais cristãos, firmados nas Sagradas Escrituras. Em suma, é garantido a todo cristão ou pessoa de qualquer credo religioso, o direito de ensinar/recomendar a união afetiva heterossexual, como princípio moral e recomendação divina.

É de público conhecimento que os movimentos LGBT possuem diretrizes de ação que visam coibir este direito, porém isso significaria um desrespeito ao direito de expressão doutrinária e ideológica dos cristãos. Portanto, todo cristão brasileiro possui o direito de ensinar os valores cristãos relativos à família aos seus filhos.

Porém, quando se trata dos valores ensinados nas escolas públicas, a controvérsia é maior. O debate acerca do currículo escolar e a questão da educação sexual de nossas crianças tem sido cada vez mais acirrado. O que causa preocupação é que em muitos casos não se tem considerado a importância de se respeitar os valores familiares ensinados às crianças. Defendo que, neste ponto, não caberia às escolas públicas a educação sexual das crianças, mas a educação para o respeito à diversidade de experiências no campo afetivo. Não cabe à escola dizer o que é certo ou errado no campo da heterossexualidade ou homossexualidade, nem dizer que tudo é normal ou anormal, bonito ou feio. É de sua responsabilidade ensinar a criança a respeitar o outro, independente de sua experiência, mesmo que a outra criança pense de modo diferente.

4) O casamento religioso gay – O casamento civil, legalizado em muitos países, não obriga ao Padre, Pastor ou Rabino que celebre o casamento religioso gay. Existe base legal para que os ministros de confissão religiosa (que fazem defesa da família heterossexual) não sejam forçados a darem uma bênção religiosa para um casal gay. Qualquer tentativa de obrigar legalmente este ato significaria infringir o Art.5º da CF.

Dentre os cristãos, cada vez mais cresce o temor de que as novas propostas defendidas por setores da sociedade sejam aprovadas como lei, tornando o próprio Estado um instrumento de perseguição à Igreja. As políticas afirmativas, que visam proteger as “minorias” de processos históricos de injustiça protagonizados pela maioria, devem ser analisadas com muito cuidado. Em alguns casos representam grande avanço para a sociedade, contudo, em outros, podem ser utilizadas como forma de manipulação do Estado para afrontar valores defendidos por uma maioria dos cidadãos, de confissão cristã (católica ou evangélica).

Em última instância, caso um dia o Estado assuma deliberadamente princípios anticristãos e queira obrigar aos cristãos a negarem seus posicionamentos, devemos tomar sobre nós a responsabilidade de sermos testemunhas (mártires) da fé, fazendo resistência pacífica e consciente, ainda que nos sobrevenham os grilhões.

5) A Graça de Deus como maior bandeira – A essência do Evangelho de Cristo está no testemunho da Graça de Deus, que se efetiva por meio do amor, do perdão, da reconciliação, da cura. A maior missão da Igreja não é julgar o mundo, mas anunciar ao mundo esta Graça de Deus, que vai além de todas as fronteiras. O amor de Deus é incondicional e é ofertado a todo e qualquer ser humano. Não temos a autoridade para dizer quem é digno ou não de receber o perdão de Deus. Este assunto cabe somente ao próprio Deus. Nossa missão, enquanto cristãos, é anunciar que todo aquele que crê neste amor de Deus e o recebe em sua vida, será reconciliado com Deus.

Neste sentido, defendo que devemos continuar nossas vidas, militando na defesa de nossos valores, porém, com o devido cuidado para não cultivarmos a amargura, o rancor, o ódio, que são sentimentos incompatíveis com o amor de Cristo. Deve haver em nós a humildade, a simplicidade das pombas, a prudência das serpentes e, acima de tudo, a demonstração do amor de Deus por cada pessoa que estiver ao nosso redor, na escola, na vizinhança, na família, no trabalho, na faculdade, na associação de bairro, etc., independente da experiência afetiva por ela vivida.

Desde minha adolescência, tenho convivido com pessoas homossexuais em diversos espaços. Dentre elas, fiz amigos, amigas, ou apenas colegas de trabalho, de classe. Diante de mim estavam homens e mulheres amados por Deus. Não posso simplesmente condená-los. Devo acolhe-los, respeitá-los, partilhar com eles daquele espaço, garantindo que sejam tratados de modo digno. Sei o que diz a Bíblia acerca do homossexualismo, e também sei o que diz a Bíblia acerca do amor de Deus por todo pecador, o que inclui a mim e a você, prezado leitor

Nos últimos dias o Brasil presenciou manifestações em defesa do orgulho gay. Muitos dos manifestantes fizeram críticas afrontosas à fé Cristã. Estas manifestações causaram espanto e feriram o coração de muitos cristãos, pois viram sua fé ser ridicularizada, desrespeitada jocosamente. Que Deus nos dê força para perdoar, para não trocar o mal com o mal. Que Deus seja conosco e nos dê sabedoria para construir a paz em um mundo de ódio e rancor.

3 comentários:

  1. J. C. Franklin de Andrade29/06/2015 01:16

    Muito bom reverendo. Bela explanação sobre um assunto que tem incomodado muitos líderes cristãos. A sociedade precisa fazer leituras desse naipe. São convicções de muito equilíbrio e sabedoria. Parabéns.

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  2. ''para não trocar o mal com o mal''// agora vamos falar do que o cristianismo já fez para acabar com qualquer LGBT ? Já ouviu falar na ciência chamada SOCIOLOGIA? Então... vai ter sexualidade NA ESCOLA, SIM! E se você acha que cristão é um amorzinho quando se fala em LGBT... eu nem tenho nada a dizer. E ah, liberdade de expressão é diferente de expressar o ódio (COISA QUE OS ''SANTOS CRISTÃOS'' MAIS FAZEM). Cristão se sentir ''ofendido'' é tão irônico, já que a própria religião FEZ e FAZ coisa até pior. Cristão sendo cristão.

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