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3/01/2019

Texto 2 - O Cultivo da Espiritualidade


Gidalti Guedes da Silva

A espiritualidade faz parte da gente
Na aula anterior, refletimos acerca da subjetividade humana sob o impacto da cultura contemporânea, buscando uma compreensão do ser humano na sua integralidade. Quando começamos, abordamos o tema da subjetividade a qual abrange a dimensão psicológica e espiritual do ser humano. Vimos como a formação da nossa subjetividade determina a maneira como pensamos, sentimos, desejamos e interpretamos a realidade que nos cerca, interferindo nas decisões que tomamos, no modo como nos relacionamos com o universo, com pessoas ao nosso redor, além de condicionar o olhar que temos acerca de nós mesmos.

Vimos como o ser humano, ao perceber-se incompleto, possui um desejo de totalidade. Daí por que ele se projeta existencialmente para além do que vê, além do que pode ser tocado, mensurado. O ser humano possui uma vocação para transcendência, uma busca existencial de superar as necessidades e limitações da vida, de encontrar sentido para suas dores e perdas, de ressignificar o pessimismo com a esperança, mesmo que não consiga vislumbrar de imediato a solução para seus problemas. É deste desejo de transcendência que nasce a espiritualidade, reconhecida como elemento que constitui a subjetividade humana.

A espiritualidade é um traço determinante da nossa subjetividade, independente se a cultivamos ou não por meio de uma experiência religiosa instituída. Segundo Pedro Casaldáliga (1998, p.9), “Toda pessoa está animada por uma espiritualidade ou por outra, porque todo ser humano, cristão ou não, religioso ou não, é um ser também fundamentalmente espiritual”. Mesmo que uma pessoa não seja adepta a uma religião, ela continuará tendo a espiritualidade como elemento que constitui seu ser. Indo mais além, mesmo que alguém, de modo consciente, se declare ateu, negando em absoluto a existência de uma ou mais divindades e se afastando completamente de uma vida religiosa, ele não deixará de possuir uma dimensão espiritual.

A espiritualidade se expressa de diversos modos, um deles é a capacidade de crer, isto é, capacidade de depositar sua fé em algo ou alguém, e este é um atributo de todo ser humano. Paul Tillich compreende a fé “como estar possuído por algo que nos toca incondicionalmente” (1985, p. 5). Não possuímos a fé, mas ela nos possui. Esta afirmação se torna mais clara quando compreendemos que a experiência de crer é algo que integra nosso ser, passando a influenciar nossas escolhas, nosso modo de sentir e organizar os pensamentos.

Para Tillich, a fé pode ser compreendida como uma preocupação suprema que determina o ser ou não ser das pessoas, não no tocante à existência física, mas no sentido de conferir significado e objetivo à sua própria existência. A fé é um dos principais elementos que constituem a subjetividade, pois expressa o que há de mais profundo em nós, exercendo influência sobre todo nosso ser. Desse modo, é o ato de crer que alimenta a espiritualidade. Quando depositamos nossa fé em algo ou alguém (pessoa, doutrina, filosofia, projetos científicos, etc.), estabelecemos a fonte de alimento para nossa espiritualidade.

Temos o exemplo do sujeito que se declara ateu e acaba depositando sua fé na ciência, nas realizações humanas, no progresso moderno, no futuro da nação. Por mais que tente argumentar que suas escolhas são somente racionais, críticas e firmadas em fatos científicos, reside em seu ser um zelo, um respeito e devoção pelas descobertas e verdades da ciência. Existe uma esperança de que os caminhos da ciência conduzirão o ser humano para a superação das mazelas do mundo. Por traz de tantos argumentos racionalistas, existe em seu interior uma dimensão escatológica, uma esperança de um “lugar sem males”, do “novo céu e nova terra”, mas que se expressa em uma linguagem não religiosa.

Podemos mencionar o exemplo das pessoas comuns que não possuem formação acadêmica tão racionalista, nem se declaram ateístas, mas que experimentam um tipo de ateísmo prático no seu cotidiano. Na primeira aula, vimos como um número cada vez maior de pessoas possui sua subjetividade cativa da cultura consumista, tendo consequências para a própria espiritualidade. Elas possuem a fé de que o dinheiro e as conquistas materiais lhes trarão felicidade. Outras possuem como “preocupação suprema” a busca do poder, canalizando suas energias e sua inteligência para satisfazer sua vaidade e egoísmo.

Contudo, devemos reconhecer a existência de um número crescente de pessoas que manifestam uma real preocupação com o cultivo da espiritualidade, desejam superar valores consumistas/egoístas e almejam um sentido mais profundo para suas vidas, mas que não se identificam com as propostas religiosas com as quais tiveram algum contato e desenvolvem um tipo de espiritualidade sem vínculos comunitários – religiosos. , mas manifestam cotidianamente sua sede por uma experiência espiritual profunda, marcada pelo amor e pela partilha.

Ainda não poderia deixar de mencionar as pessoas que cultivam sua espiritualidade em alguma religião específica, por meio dos cultos, ensinos doutrinários, vivência comunitária e devoção pessoal. Mas fica a questão: podemos considerar que tais pessoas já estão no caminho certo para o cultivo de uma espiritualidade sadia? Por um lado, digo que sim, uma vez que a vida religiosa estimula as pessoas a buscarem o transcendente, além de colherem dos benefícios da comunhão com outros adeptos de sua crença. Por outro lado, existem muitas pessoas que possuem uma fervorosa vida religiosa, mas desfrutam de uma espiritualidade superficial. Isso ocorre, sobretudo, quando a própria experiência religiosa está reduzida aos valores e sentidos de vida estabelecidos pela cultura consumista.

A importância do cultivo da espiritualidade na sociedade contemporânea
O cultivo de uma espiritualidade sadia se baseia, primeiramente, no reconhecimento de que a existência humana está firmada não somente em seus aspectos concretos; mas que o ser humano está de algum modo relacionado com um projeto maior, uma realidade espiritual que lhe dá sentido à vida. As pessoas estão em busca dessas respostas, porém, procuram de modo equivocado, pois continuam colocando seu foco/preocupação para fora si mesmas, condicionando seu olhar para a realidade material cotidiana, para as “certezas” da ciência, para as “verdades” estabelecidas e impostas, de fora para dentro. Acabam aceitando fórmulas de felicidade que não a conduzem a um processo de descoberta interior, nem valorizam sua autonomia e liberdade, e por isso mesmo acabam em frustrações.

Durante o período medieval, as pessoas tinham suas vidas orientadas pelas afirmações teológicas. Tinham por certo que, de algum modo, faziam parte de um todo, de uma totalidade cósmica/espiritual que dava sentido as suas vidas. Havia uma compreensão de que as pessoas, os seres vivos e toda criação partilham de uma interdependência as quais estão conectados e se relacionam por meio de leis físicas e espirituais. No ocidente, a Igreja Medieval foi responsável por dizer quais eram estas leis e qual a moral a ser seguida pela sociedade. Por mais que a história aponte para grandes equívocos desse período da história, vale ressaltar que a cultura oferecia maior segurança existencial para as pessoas as quais compreendiam a si mesma a partir da coletividade social.

Com a chegada do projeto da modernidade, o humanismo protestante passou a ressaltar que as pessoas devem buscar autonomia na sua relação com Deus. O protestantismo não rompeu totalmente com a cultura medieval, pois continuou a compreender que cada pessoa deve estar atenta para a possibilidade de reconciliação com Deus, mediante sua Graça e com o próximo. A diferença é que o protestantismo deu ênfase em cada ser humano como sujeito o qual possui uma relação direta com Deus/totalidade, não dependendo da mediação institucional e/ou sacramental da Igreja para alcançar a salvação. Tinha-se como objetivo a valorização da pessoa humana, em sua relação para com Deus, evitando que a Igreja, mais motivada por projetos de manutenção do poder temporal que pelo anúncio do Reino de Deus, se valesse da teologia para manipular as massas.

Entretanto, os ideais humanistas cristãos foram desenvolvidos a partir de outras perspectivas. A partir do século XVIII (com o Iluminismo) e do século XIX (com o positivismo científico), a sociedade ocidental passou a ser orientada por um projeto de sociedade firmado nas verdades científicas em oposição às verdades teológicas. A sociedade deixou de ser compreendida a partir de uma totalidade, mas como um corpo que se organiza a partir dos indivíduos. Ocorre a primazia do indivíduo sobre o coletivo, no intuito de promover a autonomia das pessoas diante das antigas tradições religiosas e familiares. Porém, este processo de individuação contribuiu para uma desagregação social, fruto da fragmentação social, da crise de sentido para a vida que passou a se manifestar coletivamente.

O sociólogo Émile Durkheim (1958-1917) percebeu que o índice de suicídio estava aumentando ao passo que as pessoas rompiam com suas tradições, assumindo um estilo de vida marcado pelo individualismo. Pensando nisso, ele dedicou longo período de sua vida em um projeto educacional, voltado para a escola pública que tinha por objetivo principal substituir, no imaginário das crianças, a ideia de Deus pela a de Sociedade. Durkheim estudou as formas elementares da vida religiosa para criar algo equivalente, mas em termos laicos. Ele pretendia substituir os parâmetros morais religiosos por uma moral laica. Para tanto, ele procurou demonstrar como que a sociedade e o próprio Estado representam em termos concretos a “totalidade” que deve dar sentido à vida de cada indivíduo. Daí a importância de que os cidadãos nutrissem certa devoção pelo Estado, valendo-se dos símbolos nacionais, das músicas de amor e culto à Pátria. Qualquer pessoa que se posicionasse contra o Estado ou contra os símbolos nacionais estaria questionando o fundamento de sua própria existência como indivíduo, devendo ser coagido a viver em harmonia com a coletividade social.

Essa proposta de organização social encontrava autoridade nos argumentos científicos, portanto, era considerada perfeita, infalível, digna de confiança. Os países que abraçaram a proposta estavam extremamente otimistas, considerando que finalmente o ser humano, por sua própria capacidade e méritos, caminhava rumo à evolução. Porém, durante o século XX, as contradições e falhas do sistema socioeconômico ficaram expostas, abalando decisivamente a cultura ocidental.

Em 1929, a Crise da Bolsa de Nova York demonstrou a fragilidade do sistema econômico, deixando milhões de pessoas desempregadas nos EUA e em países que dependiam da economia Norte Americana. Um sentimento de pessimismo que abalou a população, provocando alto índice de suicídios e desestruturação das famílias. Naquele período, a indústria farmacêutica cresceu absurdamente, pois investiu na fabricação de estimulantes e antidepressivos, muitos deles à base de cocaína, como forma de levantar a autoestima e fabricar o bem estar espiritual de pessoas que não encontravam mais significado para sua existência.

O período da 2ª Guerra Mundial também trouxe muitas decepções, pois desvendou as intenções imperialistas econômicas (e não humanistas) que motivaram governantes a declararem guerra. O uso da bomba atômica para dizimar milhões de pessoas e a utilização de seres humanos como cobaias dos cientistas nazistas revelaram também que a ciência não estava a serviço do bem da humanidade. Além disso, a morte de milhões de jovens nos campos de batalha e o genocídio dos judeus nos campos de concentração nazistas trouxeram tristeza para milhões de famílias. Mesmo depois desses fatos, sucessivas guerras foram desencadeadas em todos os continentes, motivadas por questões econômicas, trazendo ainda maior desapontamento.

Atualmente, a sociedade segue seus rumos, sem ter mais a religião como parâmetro de verdade para as pessoas, nem de moral para a sociedade. A ciência ainda marca forte presença, mas não como portadora de verdades absolutas, pois ela própria sempre se contradiz. As pessoas andam desacreditadas do Estado, que não é mais percebido como seu referencial de totalidade, harmonia social, nem de parâmetro moral. Na sociedade contemporânea, não há mais verdades absolutas, a única coisa palpável são os próprios bens materiais adquiridos e desejados, os prazeres efêmeros vivenciados no momento presente. As pessoas seguem cada vez mais individualizadas, fragmentadas, sem uma percepção do todo, solitárias em meio à multidão, entorpecidas por drogas (lícitas e não lícitas) e sedentas por uma resposta que não irão encontrar no estilo de vida que levam, pois são respostas que somente o cultivo de uma espiritualidade sadia pode oferecer.

O cultivo da espiritualidade pode devolver às pessoas a percepção de totalidade, fazendo-as sentir os vínculos de interdependência que devem ser preservados e valorizados entre os seres humanos, entre os seres vivos como um todo. É no cultivo da espiritualidade que reconhecemos que nossas certezas racionais devem ser questionadas, que nossos juízos e preconceitos precisam ser revistos de modo que sejam derrubadas as barreiras que separam as pessoas. A espiritualidade reestabelece um sentimento de coletividade que está para além da moral laica do Estado moderno.

Portanto ...
É nesse contexto que a espiritualidade se faz necessária, como busca do restante do sentido de vida das pessoas, no papel social que desenvolvem na família, na vizinhança/comunidade, na Igreja, no seu trabalho, no serviço que prestam à sociedade. Somente a espiritualidade pode devolver essa integralidade à pessoa, pois sua fé (como preocupação suprema) não estará restrita a um determinado compartimento de sua vida, mas a envolverá integralmente, devolvendo-lhe harmonia interior e paz, mesmo que esteja enfrentando duras provações em sua vida.

Portanto, a saúde espiritual, psicológica e física das pessoas passa pelo cultivo de uma profunda espiritualidade. A própria saúde coletiva está relacionada com o cultivo da espiritualidade, uma vez que se a cultivam sadia, tendem a contribuir significativamente para o bem estar social.

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Fica a dica
No século XX, o teólogo Paul Tillich, um existencialista cristão, bem como outros teólogos e cientistas da religião, compreenderam a dimensão religiosa como algo que constitui a subjetividade humana. Eles denominaram de “religiosidade” o que atualmente chamamos de “espiritualidade”, caracterizando uma dimensão do ser humano, que pode (ou não) ser cultivada em uma religião instituída.
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PARA REFLETIR
Pense no militar, no combatente e no servidor público em geral que dedicam seus dias servindo a um Estado, diante do qual possui muitas desconfianças. Qual o sentido maior do serviço que presta? Na atualidade, seria suficiente afirmar “o amor à Pátria” para inspirar combatentes e servidores a se dedicarem verdadeira e honestamente às suas atribuições? Será que o único motivo de se dedicarem ao seu trabalho é a segurança financeira e os benefícios materiais que o emprego público lhe proporciona? De modo distinto, estas perguntas podem ser feitas para trabalhadores do setor privado.
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Importante
Você sabe o que é Secularização?
Peter Berger (1985, p.119) afirma que “[...] quando falamos em cultura e símbolos, [...] afirmamos implicitamente que a secularização é mais que um processo socioestrutural. Ela afeta a totalidade da vida cultural e da ideação [...]. O ocidente moderno tem produzido um número crescente de indivíduos que encaram o mundo e suas próprias vidas sem o recurso às interpretações religiosas”. Uma sociedade sob impacto da secularização em sua cultura não valoriza as significações religiosas e nada que possa decorrer de uma relação com as mesmas, enquanto visão de mundo e estilo de vida. As superstições, as crendices, a relação mística com elementos da natureza, e tudo mais, perdem sentido e deixam de nortear o senso comum.


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